Quando nós éramos crianças, acostumamo-nos com coisas simples. Qualquer lata de Leite Ninho poderia ter um cordão amarrado e se transformava num carrinho. Quatro sandálias Havaianas formavam perfeitamente as duas traves de um campo de futebol. Nós éramos criativos, inventávamos nossas brincadeiras e criávamos nossos próprios brinquedos. Era fácil ser criança, como também era "barato" para os pais fazerem seus filhos felizes, afinal, bola, pião, jogo de botão e bola de gude poderiam ser presentes perfeitos.
O tempo foi passando, o mundo foi se modernizando e os brinquedos foram ficando diferentes. Brinquedo bom passou a ser brinquedo caro (quanto custa um Play Station mesmo?). Pior que isso, brinquedo bom passou a ser algo complexo, cheio de luzes, fios, baterias, circuitos eletrônicos. Um dia desses meu filho ganhou um pião. Mas não era o pião da minha época, de madeira que girava após desenrolarmos o cordão. Era um pião de plástico, com uma peça de encaixe e com um botão que, quando acionado, desprendia-se do pião e o fazia girar. Aquela técnica que o bom lançador de pião tinha, aquela que levávamos algum tempo para aprender no nosso tempo, se foi. Agora é só apertar o botão e qualquer um roda o pião. E esse pião ainda é diferente: quando roda toca uma musiquinha e acende luzes de cores diferentes. Bem diferente do nosso pião de madeira.
Tudo muito complexo e tudo muito simples de usar. Difícil mesmo é de consertar. Se dá um defeito, só levando numa assistência especializada. Em outros tempos, era diferente. O brinquedo que quebrava poderia ser consertado em casa mesmo. Se a pipa se rasgava, a gente trocava o papel. Se a bola furava, era consertada com um remendo. As vezes, muitas coisas nem precisavam ser consertadas. A gente continuava brincando com o boneco que ficou sem o braço, com o carrinho que ficou sem a roda ou com o dominó que ficou sem uma peça.
Hoje em dia, não fabricamos nem consertamos nosso brinquedo e cada vez menos vemos brincadeiras com interação ativa em grupo (não em rede, on-line, mas olho no olho). As crianças de hoje ficaram menos criativas? Talvez não. Talvez ela apenas estejam vivendo em um ambiente que não as incentive a exercitar a criatividade. Tudo é muito "pronto" e simples de usar, porém complexo de ajustar. Quebrou? Manda pro conserto ou é só comprar outro. Enjoou? "Baixa" outro da internet.
Em meio a esse ambiente onde tudo é feito para ser fácil de usar e difícil de compreender, as crianças vão perdendo o interesse pela criação. Tudo parece ser tão complexo por dentro que se torna intocável, distante e desinteressante. O poeta já dizia há décadas atrás: "quem me dera, ao menos uma vez, que o mais simples fosse visto como o mais importante". Ele estava certo, mas não foi o caminho da simplicidade que o mundo tomou. E, assim, nossas crianças vão crescendo esperando do mundo coisas prontas. Elas vão crescendo cada vez menos estimuladas, tornando-se menos criativas e, assim, cada vez menos capazes de mudar seu próprio mundo.
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
domingo, 20 de setembro de 2015
Qual o real tamanho dos seus problemas?
Um dia, um amigo me falou: "Você consegue ver o lado positivo em coisas das quais todo mundo reclama.". Desde então tenho pensado no significado desta frase. É verdade. A vida nos reserva várias situações, vários acontecimentos, que não são exatamente como quereríamos que fossem. Muitas vezes, algo não sai como desejamos, desde as coisas mais insignificantes até as mais importantes. Muitas pessoas veem as adversidades como motivos suficientes para desistirem; outras, como desafios que os motivam a superá-los; enquanto outras simplesmente enxergam as adversidades como uma coisa minúscula como uma gotinha de suor escorrendo em direção aos olhos, ou seja, elas enxugam o rosto rapidamente e seguem em frente.
Quantas vezes você desejou fazer algo diferente, planejou tudo e ... desistiu porque um obstáculo pareceu-lhe intransponível? Foi aquela promessa de parar de fumar interrompida porque "a vontade foi mais forte". Foi aquela caminhada matinal não realizada porque o céu amanheceu nublado. Foi aquela dieta que nem começou porque os convites de amigos para comer umas extravagâncias foram irrecusáveis. Foi aquela festa que você desistiu de ir só porque, entre os mais de cem convidados, havia uma pessoa de quem você não gostava. Foi aquele texto superinteressante que você não leu, só porque viu que ele era um pouco longo. Foi aquele passeio com a turma que você não fez, só porque achou o local escolhido longe ou caro. Foi o carro que você não lavou por preguiça e o mandou ao lava-jato. Foi a palestra que você não deu, só porque não gosta de falar em público. Foi aquela prova que você fez sem estudar porque não teve como recusar os convites do fim de semana. As desculpas foram "mil", mas, sejamos honestos, foi você que as transformou em algo intransponível. Foi você que não fez o que poderia fazer porque não quis.
Veja exemplos de outras pessoas que tiveram os mesmos planos, que vivenciaram os mesmos obstáculos e que passaram por cima de tudo. Quem venceu o vício do fumo certamente passou por dias de tentação. O céu também amanheceu nublado muitas vezes para pessoas que fizeram sua caminhada às seis da manhã. Pessoas que perderam uns quilinhos após uma dieta firme tiveram que dizer não a muitos convites. Pessoas foram a festas e se divertiram muito, mesmo tendo que encarar pessoas desagradáveis. Muitos tiveram o prazer de dizer que o texto era longo, mas que valeu a pena ler cada linha. Seus amigos não se arrependeram nem da distância nem do preço do passeio inesquecível que fizeram. Muitos também economizaram uma graninha e venceram a preguiça ao lavar o próprio carro. Muitos que foram aplaudidos após uma palestra também ficaram com o frio na barriga por horas antes de as realizarem. Muitos não se envergonharam ao dizer a você: "Não vou. Tenho prova na segunda.". Sim. Elas venceram e você também poderia ter vencido. A diferença é que elas não procuraram desculpas e fizeram o que prometeram fazer, simplesmente, porque quiseram fazer.
Superar tais obstáculos não é fácil. As vezes precisamos ser muitos fortes para vencer as tentações, saber dizer não e sofrer um bocado em busca de um objetivo. Pode ser difícil para alguns, mas quase sempre é possível superar os obstáculos. O ditado "querer é poder" nunca foi tão apropriado quanto nestas situações. Se é difícil para alguns, felizmente, existem pessoas que já chegaram a um nível de determinação tamanha que tudo isso já se torna natural, sem tanto sofrimento. Para estas pessoas, apenas citando um exemplo, dizer "não" já não causa tanta aflição. É uma atitude já incorporada e que se tornou natural. Este tipo de pessoa, quando quer algo, não mede esforços nem enxerga obstáculos. Ou melhor, até enxerga, mas os vê por cima, bem pequeninos. Quando quer, faz, não importam as condições. Se ela quer ir ao cinema assistir ao filme que tanto desejou, não espera que algum amigo tenha tempo para ir. Ela convida e, se ninguém for com ela, vai sozinha mesmo. São pessoas que, quando precisam fazer um trabalho da faculdade, mas o barulho da furadeira do vizinho está alto, ao invés de apenas reclamar, tampam os ouvidos e fazem o seu trabalho. São pessoas que não desistem de comprar o que necessitam só porque as filas dos caixas estavam gigantes. São pessoas que não ficam reclamando que o calor está forte, que barulho está alto, que o cronograma está apertado ou que não lhe explicaram direito como fazer. Em outras palavras, elas fazem o que precisa ser feito, afinal, dificuldades são pequenos muros e muros foram feitos para serem "pulados".
Existem pessoas que realmente têm grandes problemas. Antes que estas me xinguem, deixo claro que não é elas que este texto critica. Estas estão perdoadas porque só quem vivencia seus próprios problemas sabe a real dimensão deles. O texto se refere a pessoas que transformam situações superáveis em problemas maiores do que realmente são. É preciso maturidade e sabedoria para reconhecer o tamanho dos nossos problemas. As vezes enfrentamos problemas que realmente são têm solução. Para estes, existem opções: aceitar e apenas reclamar, ou aceitar e fazer algo para minimizar seus efeitos. Se não dá para cessar a tempestade, proteja-se da chuva e siga em frente. Por fim, cabe a cada um de nós refletir que tipos de atitudes temos tido diante dos nossos problemas: eles realmente são grandes problemas ou somos nós que os transformamos em "monstros"? Nossos problemas são intransponíveis, transformamo-os em fonte de motivação ou passamos por cima deles como se nem existissem?
Quantas vezes você desejou fazer algo diferente, planejou tudo e ... desistiu porque um obstáculo pareceu-lhe intransponível? Foi aquela promessa de parar de fumar interrompida porque "a vontade foi mais forte". Foi aquela caminhada matinal não realizada porque o céu amanheceu nublado. Foi aquela dieta que nem começou porque os convites de amigos para comer umas extravagâncias foram irrecusáveis. Foi aquela festa que você desistiu de ir só porque, entre os mais de cem convidados, havia uma pessoa de quem você não gostava. Foi aquele texto superinteressante que você não leu, só porque viu que ele era um pouco longo. Foi aquele passeio com a turma que você não fez, só porque achou o local escolhido longe ou caro. Foi o carro que você não lavou por preguiça e o mandou ao lava-jato. Foi a palestra que você não deu, só porque não gosta de falar em público. Foi aquela prova que você fez sem estudar porque não teve como recusar os convites do fim de semana. As desculpas foram "mil", mas, sejamos honestos, foi você que as transformou em algo intransponível. Foi você que não fez o que poderia fazer porque não quis.
Veja exemplos de outras pessoas que tiveram os mesmos planos, que vivenciaram os mesmos obstáculos e que passaram por cima de tudo. Quem venceu o vício do fumo certamente passou por dias de tentação. O céu também amanheceu nublado muitas vezes para pessoas que fizeram sua caminhada às seis da manhã. Pessoas que perderam uns quilinhos após uma dieta firme tiveram que dizer não a muitos convites. Pessoas foram a festas e se divertiram muito, mesmo tendo que encarar pessoas desagradáveis. Muitos tiveram o prazer de dizer que o texto era longo, mas que valeu a pena ler cada linha. Seus amigos não se arrependeram nem da distância nem do preço do passeio inesquecível que fizeram. Muitos também economizaram uma graninha e venceram a preguiça ao lavar o próprio carro. Muitos que foram aplaudidos após uma palestra também ficaram com o frio na barriga por horas antes de as realizarem. Muitos não se envergonharam ao dizer a você: "Não vou. Tenho prova na segunda.". Sim. Elas venceram e você também poderia ter vencido. A diferença é que elas não procuraram desculpas e fizeram o que prometeram fazer, simplesmente, porque quiseram fazer.
Superar tais obstáculos não é fácil. As vezes precisamos ser muitos fortes para vencer as tentações, saber dizer não e sofrer um bocado em busca de um objetivo. Pode ser difícil para alguns, mas quase sempre é possível superar os obstáculos. O ditado "querer é poder" nunca foi tão apropriado quanto nestas situações. Se é difícil para alguns, felizmente, existem pessoas que já chegaram a um nível de determinação tamanha que tudo isso já se torna natural, sem tanto sofrimento. Para estas pessoas, apenas citando um exemplo, dizer "não" já não causa tanta aflição. É uma atitude já incorporada e que se tornou natural. Este tipo de pessoa, quando quer algo, não mede esforços nem enxerga obstáculos. Ou melhor, até enxerga, mas os vê por cima, bem pequeninos. Quando quer, faz, não importam as condições. Se ela quer ir ao cinema assistir ao filme que tanto desejou, não espera que algum amigo tenha tempo para ir. Ela convida e, se ninguém for com ela, vai sozinha mesmo. São pessoas que, quando precisam fazer um trabalho da faculdade, mas o barulho da furadeira do vizinho está alto, ao invés de apenas reclamar, tampam os ouvidos e fazem o seu trabalho. São pessoas que não desistem de comprar o que necessitam só porque as filas dos caixas estavam gigantes. São pessoas que não ficam reclamando que o calor está forte, que barulho está alto, que o cronograma está apertado ou que não lhe explicaram direito como fazer. Em outras palavras, elas fazem o que precisa ser feito, afinal, dificuldades são pequenos muros e muros foram feitos para serem "pulados".
Existem pessoas que realmente têm grandes problemas. Antes que estas me xinguem, deixo claro que não é elas que este texto critica. Estas estão perdoadas porque só quem vivencia seus próprios problemas sabe a real dimensão deles. O texto se refere a pessoas que transformam situações superáveis em problemas maiores do que realmente são. É preciso maturidade e sabedoria para reconhecer o tamanho dos nossos problemas. As vezes enfrentamos problemas que realmente são têm solução. Para estes, existem opções: aceitar e apenas reclamar, ou aceitar e fazer algo para minimizar seus efeitos. Se não dá para cessar a tempestade, proteja-se da chuva e siga em frente. Por fim, cabe a cada um de nós refletir que tipos de atitudes temos tido diante dos nossos problemas: eles realmente são grandes problemas ou somos nós que os transformamos em "monstros"? Nossos problemas são intransponíveis, transformamo-os em fonte de motivação ou passamos por cima deles como se nem existissem?
sábado, 30 de maio de 2015
Quando o melhor não está evidente no primeiro contato
Muitas vezes, somos tentados na vida a sair do sério e reclamar raivosamente contra algo ou alguém que não age conforme esperamos ou que nos causa um prejuízo. Em algumas dessas situações, manter a calma e exercitar e parcimônia é uma tarefa muito difícil. No entanto, a vida é capaz de nos surpreender e, algumas vezes, o nosso esforço acaba trazendo algumas recompensas.
Era uma sexta-feira. Resolvi levar a bicicleta para a manutenção de rotina. Uma manutenção deste tipo, normalmente, dura menos de uma dia. Você leva a bicicleta na loja pela manhã e pega à tarde. Como era fim de tarde, o lojista avisou que o serviço só estaria pronto no dia seguinte. Era o esperado por mim. Mas, como no sábado já tinha outros compromissos, avisei que iria buscar a bicicleta na segunda-feira. Combinado. Tudo bem. Por iniciativa própria, resolvi também já deixar a manutenção paga antecipadamente.
Pois bem. Na segunda-feira, pela manhã, saí mais tarde que o habitual de casa, fui até a loja e esperei-a abrir. Atrasei alguns compromissos do dia para estar ali, naquele momento, e retirar a bike revisada para levá-la para casa, antes de seguir a rotina do dia. Para surpresa e decepção total, a atendente informou que o serviço ainda não havia sido concluído. Veio logo em mente a lembrança de que a bicicleta foi deixada na sexta e que o serviço deveria estar pronto, com folga, no sábado. Já era segunda-feira e não estava pronto. Lembrei também dos compromissos que adiei para estar na loja naquele horário na segunda-feira. Ainda, como mais um agravante, lembrei que o serviço já havia sido pago com antecedência. Tudo isso já seria motivo suficiente para iniciar uma reclamação ruidosa. Para alguns, já haveria motivo para esculhambar o estabelecimento pelo mau atendimento prestado e prometer não mais voltar ali. Por instante, realmente, esse sentimento veio à mente, mas, subita e surpreendentemente, se foi.
Tomado por uma quase inexplicável paciência, disse: "Tudo bem". E, em seguida perguntei: "Quando o serviço estará pronto?". A resposta foi que poderia retornar à tarde, horário este em que já tinha outro compromisso, desta vez, inadiável. Assim, só poderia retornar na terça-feira. Foi o que aconteceu. No entanto, passei a segunda-feira inteira pensando por que tive tamanha paciência, pensando como pude ter sido tão "bonzinho", enfim, pensando por que não havia usado meu direito de consumidor mal atendido para dar um esculacho geral e com toda razão.
Pois bem, tirados esses pensamentos ruins, fui no dia seguinte, finalmente, buscar a bicicleta e foi justamente aí que veio a surpresa. A atendente informou que a bicicleta ainda estava com bastante graxa nas partes internas e que, por isso, não foi preciso fazer a lubrificação, ficando a manutenção restrita à lavagem e ao ajuste dos freios. Sendo assim, a loja iria restituir parte do direito pago antecipadamente pelo serviço que não precisou ser realizado. Foi uma grata surpresa, principalmente, porque, hoje em dia, é difícil achar lojistas honestos ao ponto de não cobrar o preço total de um serviço, quando o mesmo já está facilitado. Ponto para aquela loja que, naquele momento, ganhava a confiança de um cliente que não hesitaria em voltar a tomar seus serviços. Justamente aquela loja que, um dia antes, poderia ter sido alvo da ira de um cliente insatisfeito pelo serviço demorado.
A vida tem dessas coisas. Muitas vezes, a primeira impressão, que afirmam ser a que fica, na verdade, é a que nos engana. Pior, esta primeira impressão negativa, quando levada muito sério nos faz perder oportunidades de conhecer um ou vários lados bons, que se encontram ocultos no primeiro contato. Na situação descrita, uma raiva causada por um serviço atrasado poderia ter me impedido de conhecer a honestidade da loja. Muitas vezes, um descontrole, uma raiva, uma ira motivada por um primeiro contato traumático, nos faz fechar nossas portas para pessoas, lojas ou situações que possuem muitas qualidades que nos fariam muito bem. Assim também ocorre muitas vezes no nosso dia-a-dia. Nos afastamos de pessoas por achá-las, num primeiro contato, muito "sem graça" e perdemos a oportunidade de conhecer suas melhores qualidades. Muitas vezes, de forma oposta, nos encantamos demais com pessoas pelo primeiro contato e nos abrirmos demais com elas, para só depois percebemos suas características ruins. Muitas vezes perdemos o controle e iniciamos uma briga com alguém por um pequeno desentendimento, logo no primeiro contato, e riscamos esta pessoa de vez de nossa vida, por resumir aquela pessoa apenas ao fato ocorrido. Quantas vezes nos afastamos de pessoas que acabamos de conhecer, só por causa de uma opinião diferente da nossa sobre um certo assunto e nos afastamos porque resumimos todas as qualidades da pessoa, apenas àquela divergente naquele momento?
A vida acaba nos ensinando a sermos mais cautelosos com nossos julgamentos. Ter calma nos primeiros contatos vai nos ajudar a não tomarmos a primeira impressão com verdade sempre. Experiências ruins, num primeiro instante, não significam que tudo que gira em torno daquilo ou daquela pessoa seja ruim. Não devemos nos afastar de pessoas logo no primeiro julgamento. Todos temos defeitos e virtudes. Alguns, mais defeitos que virtudes. Outros, mais virtudes que defeitos. Um defeito evidente logo de cara, pode esconder grandes e grandes virtudes. Então, que sejamos mais cautelosos com nossos julgamentos e tenhamos sabedoria para enxergar o melhor que está por vezes escondido no primeiro contato.
quinta-feira, 26 de março de 2015
Um copiloto pode estar no caminho
"Viver é uma arte, é um ofício, mas é preciso cuidado...", já dizia a música. Passamos a vida toda cercados pelo perigo e por diversas incertezas. Temos medo de sofrer, temos medo de nos machucarmos, temos medo de ficarmos sós, temos medo de passarmos fome, temos medo de adoecer, temos medo de sermos roubados, temos medo de morrer. E por causa dos riscos que ela oferece, passamos a viver constantemente tomando precauções. Tantas precauções para podermos viver que, muitas vezes, deixamos "de viver".
Evitamos sair à rua para não sermos assaltados e, assim, ficamos trancados em casa. Evitamos comidas gordurosas para não entupir nossas artérias e, assim, comemos o que não nos dá prazer. Evitamos fazer aquela pergunta ao professor para não passar vergonha de uma pergunta boba e, assim, ficamos com a dúvida mal esclarecida. Evitamos brincar na chuva para não ficarmos gripados e, assim, deixamos de aproveitar uma das melhores coisas da vida. Evitamos pedalar na pista para não sermos atropelados por um carro, assim, ficamos presos no trânsito ou dentro de um ônibus lotado. Evitamos passear na véspera de uma prova para ficar estudando de última hora e, assim, nem aprendemos direito nem curtimos o passeio. Resolvemos poupar dinheiro hoje para termos tranquilidade no futuro e, assim, nem aproveitamos o dinheiro hoje e nem sabemos se aproveitaremos no futuro. Evitamos revelar nosso amor para não sofrermos a decepção de uma rejeição e, assim, ficamos sem a chance de amar.
Enfim, passamos a vida com medo, evitando aquilo que pode nos fazer sofrer e perdemos a chance de aproveitar o melhor da vida. Tanta precaução, tanta preocupação, tantos cuidados, tanto investimento no futuro... no futuro... Aquele futuro que, muitas vezes, pode não chegar. Como não chegou para aquelas mais de 150 vidas que foram bruscamente interrompidas por um copiloto que resolveu derrubar o avião.
Evitamos sair à rua para não sermos assaltados e, assim, ficamos trancados em casa. Evitamos comidas gordurosas para não entupir nossas artérias e, assim, comemos o que não nos dá prazer. Evitamos fazer aquela pergunta ao professor para não passar vergonha de uma pergunta boba e, assim, ficamos com a dúvida mal esclarecida. Evitamos brincar na chuva para não ficarmos gripados e, assim, deixamos de aproveitar uma das melhores coisas da vida. Evitamos pedalar na pista para não sermos atropelados por um carro, assim, ficamos presos no trânsito ou dentro de um ônibus lotado. Evitamos passear na véspera de uma prova para ficar estudando de última hora e, assim, nem aprendemos direito nem curtimos o passeio. Resolvemos poupar dinheiro hoje para termos tranquilidade no futuro e, assim, nem aproveitamos o dinheiro hoje e nem sabemos se aproveitaremos no futuro. Evitamos revelar nosso amor para não sofrermos a decepção de uma rejeição e, assim, ficamos sem a chance de amar.
Enfim, passamos a vida com medo, evitando aquilo que pode nos fazer sofrer e perdemos a chance de aproveitar o melhor da vida. Tanta precaução, tanta preocupação, tantos cuidados, tanto investimento no futuro... no futuro... Aquele futuro que, muitas vezes, pode não chegar. Como não chegou para aquelas mais de 150 vidas que foram bruscamente interrompidas por um copiloto que resolveu derrubar o avião.
sexta-feira, 20 de março de 2015
A geração sem arranhão
Depois que você tem filhos, é inevitável não comparar a infância que você teve com a que tem proporcionado a eles. Sempre pensamos em resgatar aquilo que melhor aconteceu na nossa para possibilitar o mesmo aos nossos pequenos. Lembramos também o que de ruim aconteceu e tentamos eliminar estas experiências desagradáveis do crescimento dos nossos filhos. Enfim, baseamo-nos em nossa experiência para tornar a infância deles a melhor possível.
Quando lembramos da nossa infância, umas das primeiras lembranças são nossas brincadeiras com os amigos e nossos brinquedos. As brincadeiras com amigos eram muitas. Tinha polícia e ladrão, esconde-esconde e bola de gude. Tinham os jogos de queimado, futebol e vôlei. Tinha também tacobol, ping-pong, pular corda. Jogávamos vídeo-game (mas só quando a TV estava disponível). Juntávamos os amigos para brincar com os nossos brinquedos. Fazíamos campeonato de futebol de botão. Tinham também as travessuras: subir no muro, jogar pedra na casa da vizinha, colocar rojão na caixa do correio, apertar a cigarra do vizinho e sair correndo. A gente brincava muito, se sujava todo, rasgava a camisa no espinheiro ou rasgava quando um amigo a puxava numa ou noutra brincadeira. A gente corria, caía, se arranhava todo, pisava em prego, pisava em vidro. Brincávamos, nos machucávamos e éramos felizes.
Hoje nossos filhos também têm seus amiguinhos. Também têm seus brinquedos. Nossos filhos também se divertem, também são felizes, mas... mas..., mas de forma diferente. Nasceram e estão crescendo na geração do computador, do celular e dos jogos eletrônicos. Passam horas em frente a uma telinha, e, assim, percebemos nossos filhos divertindo-se de forma mais solitária e mais sedentária. Se, no passado, nossos pais se preocupavam em saber com quem nós estávamos brincando para não nos juntarmos com "pessoas ruins", hoje, nossos filhos brincam muito mais vezes sozinhos. Se antes a gente "ostentava" nossos machucados e arranhões, hoje, diante dos jogos eletrônicos, nossos filhos estão ficando intactos, sem marcas no corpo e até bem mais pesadinhos. Muitas vezes vemos um grupo de crianças reunidas e, de repente, aquela cena mais comum hoje em dia: uma criança ao lado da outra, todas sentadinhas e cada uma jogando com seu celular. Um silêêêêêêêncio! Bem diferente daquela baderna, daquela confusão, que enlouquecia nossos pais quando éramos crianças. Aquela baderna que, hoje, como pais, gostaríamos de ver.
É. Os tempos são outros. É difícil aceitar ou entender esta nova infância da "geração sem arranhão", ainda mais quando lembramos com tanta nostalgia da nossa. Fica uma estranha sensação de que estamos falhando na construção da infância que sonhamos para nossos filhos. Mais estranha ainda porque fica a dúvida: será que estamos realmente falhando ou será que não há nada de errado e nós é que temos dificuldade em aceitar os novos tempos? Em outras palavras, existe algo realmente errado com esta nova geração ou nós que estamos presos num passado que já não existe mais? Na dúvida, vamos viver o momento e aprender com ele. No futuro teremos a resposta.
Quando lembramos da nossa infância, umas das primeiras lembranças são nossas brincadeiras com os amigos e nossos brinquedos. As brincadeiras com amigos eram muitas. Tinha polícia e ladrão, esconde-esconde e bola de gude. Tinham os jogos de queimado, futebol e vôlei. Tinha também tacobol, ping-pong, pular corda. Jogávamos vídeo-game (mas só quando a TV estava disponível). Juntávamos os amigos para brincar com os nossos brinquedos. Fazíamos campeonato de futebol de botão. Tinham também as travessuras: subir no muro, jogar pedra na casa da vizinha, colocar rojão na caixa do correio, apertar a cigarra do vizinho e sair correndo. A gente brincava muito, se sujava todo, rasgava a camisa no espinheiro ou rasgava quando um amigo a puxava numa ou noutra brincadeira. A gente corria, caía, se arranhava todo, pisava em prego, pisava em vidro. Brincávamos, nos machucávamos e éramos felizes.
Hoje nossos filhos também têm seus amiguinhos. Também têm seus brinquedos. Nossos filhos também se divertem, também são felizes, mas... mas..., mas de forma diferente. Nasceram e estão crescendo na geração do computador, do celular e dos jogos eletrônicos. Passam horas em frente a uma telinha, e, assim, percebemos nossos filhos divertindo-se de forma mais solitária e mais sedentária. Se, no passado, nossos pais se preocupavam em saber com quem nós estávamos brincando para não nos juntarmos com "pessoas ruins", hoje, nossos filhos brincam muito mais vezes sozinhos. Se antes a gente "ostentava" nossos machucados e arranhões, hoje, diante dos jogos eletrônicos, nossos filhos estão ficando intactos, sem marcas no corpo e até bem mais pesadinhos. Muitas vezes vemos um grupo de crianças reunidas e, de repente, aquela cena mais comum hoje em dia: uma criança ao lado da outra, todas sentadinhas e cada uma jogando com seu celular. Um silêêêêêêêncio! Bem diferente daquela baderna, daquela confusão, que enlouquecia nossos pais quando éramos crianças. Aquela baderna que, hoje, como pais, gostaríamos de ver.
É. Os tempos são outros. É difícil aceitar ou entender esta nova infância da "geração sem arranhão", ainda mais quando lembramos com tanta nostalgia da nossa. Fica uma estranha sensação de que estamos falhando na construção da infância que sonhamos para nossos filhos. Mais estranha ainda porque fica a dúvida: será que estamos realmente falhando ou será que não há nada de errado e nós é que temos dificuldade em aceitar os novos tempos? Em outras palavras, existe algo realmente errado com esta nova geração ou nós que estamos presos num passado que já não existe mais? Na dúvida, vamos viver o momento e aprender com ele. No futuro teremos a resposta.
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domingo, 15 de fevereiro de 2015
Nós diante da segunda tela
"Você aguarda ansiosamente durante o dia todo. Chega a hora do programa. Você está de olhos grudados na TV. Você não quer nem piscar para não perder nem um segundo sequer..."
Parou! Parou! Está errado. Não é mais assim que acontece. Onde está o erro? Vamos começar de novo sendo mais atual.
"Você aguarda ansiosamente durante o dia todo. Chega a hora do programa. Você está com um olho na TV e outro olho no celular. Você assiste e comenta. Comenta e assiste. Você não quer perder uma curtida ou comentário dos amigos. E você comenta de novo..."
Agora sim. O segundo trecho descreve o fenômeno chamado "segunda tela". É a nova forma de assistir TV da geração sempre conectada. Para esta geração, não basta mais assistir, é preciso comentar, é preciso opinar, é preciso ver as reações de outras pessoas e, claro, sempre durante o programa. É assim durante um jogo de futebol, durante o último capítulo da novela, durante aquela luta da madrugada, um debate pré-eleitoral ou mesmo durante o concurso de novos cantores na TV. Por uns instantes, a "atração principal" chega a ficar em segundo plano. A impressão que dá é que tem mais gente de olho na segunda tela que na primeira. Para alguns, a segunda tela chega a ser até mais interessante que a primeira.
Essa nova forma de ver TV mudou nossos hábitos e a nossa forma de interação. A quantidade de comentários durante os programas é tanta, e em tão pouco tempo, que é possível "assistir" ao programa sem ao menos ligar a TV. Basta olhar a rede social e você sabe o que está ocorrendo naquele jogo que você não está vendo. Você "vê" tudo através dos olhos dos outros. Alguns chegam até a opinar sobre o andamento do programa, mesmo sem vê-lo literalmente.
Lembro de tempos atrás, desde o tempo dos vídeos-cassetes, quando a gente gravava os programas que não poderia assistir para vê-los depois. Hoje, com os registros (quase) permanentes na internet, a "gravação" na segunda tela é instantânea. Um dia desses, por exemplo, utilizei este "recurso". Não costumo ficar acordado para assistir MMA, mas, ao acordar num dia de domingo, bateu a curiosidade de saber o resultado da última luta de Anderson Silva. Poderia ter apenas consultado um site de notícia, mas preferi olhar a timeline em ordem cronológica, desde antes da luta. Acompanhei cada round e o desempenho dos lutadores somente pelos comentários de quem assistia à luta. Fiquei sabendo tudo como ocorreu, quem estava melhor a cada momento, até o resultado final. Praticamente assisti a um "vídeo tape".
Fico curioso de saber quanto tempo as pessoas que costumam usar a segunda tela, efetivamente, conseguem assistir na primeira tela. Por exemplo, num jogo de futebol, quanto tempo de uma partida de noventa minutos você está olhando para TV ao invés de olhando o celular, ou seja, quanto tempo você realmente viu do jogo? Arrisco-me a dizer que é meio a meio. Chega a ser engraçado: você esperou tanto por aquele jogo e só viu 45 minutos. Os outros 45 minutos você estava de olho na segunda tela, escrevendo ou lendo. Coitados dos patrocinadores, que pagam milhões para estampar suas marcas em volta do campo. Pagam por duas horas de exposição e são vistos por metade do tempo. Mas você também não ria deles. Você também caiu nessa: pagou caro pelo pay-per-view e viu só metade do jogo. :)
Os veículos de comunicação já há algum tempo se adaptaram a esse novo comportamento do seu público. Hoje, alguns programas de TV costumam mostrar na tela os comentários dos telespectadores, escritos, claro, nas redes sociais. Antigamente, alguns programas, quando tinham alguma interação com o público, pediam para o telespectador ligar para um número de telefone; hoje pedem para "curtir" sua página ou deixar uma mensagem. De certa forma, perceberam que seu público olha para outra tela e busca a atenção dele, trazendo-o de volta para a primeira.
Uma outra curiosidade me vem a mente: se as pessoas não estão olhando constantemente para a TV, como podem opinar com alguma precisão em rede social? Não é verdade? Lembro logo do tempo da escola, quando a professora dizia: "primeiro, prestem atenção, depois vocês copiam". Em outras palavras, com a atenção dividida, a chance de não compreender a cena, o lance, o acontecimento é enorme. E esse ruído se reflete na qualidade dos comentários. Em programas de entretenimento,não chega a ser tão problemático, mas, e nos programas mais "sérios"? Num programa de entrevista, por exemplo, ou num debate político? Como opinar sobre algo que você não prestou atenção, ou seja, que você não compreendeu direito? E como faz quando, ao invés dos telespectadores, são os "artistas" da TV que, enquanto estão apresentando o programa, simultaneamente, também estão de olho na segunda tela? Em determinado canal de TV, por exemplo, o comentarista do jogo de futebol divide seu tempo comentando a partida e lendo alguns comentários da rede social. Com a atenção dividida, é capaz de sua interpretação da partida ser tão imprecisa quando dos telespectadores.
A interação social vem mudando muita coisa no mundo. Essa nova forma de ver TV é apenas um exemplo desta mudança. A segunda tela já se incorporou de um jeito em nossos hábitos que praticamente não nos demos conta. Quando percebemos, ela já estava ali. Este artigo trouxe alguns exemplos de situações que já se incorporaram no nosso cotidiano e algumas reflexões a respeito. Os canais de documentários estão cheios de reportagens sobre a segunda tela. Assista algumas e veja outras reflexões sobre o tema. Se você ligar a TV agora, pode até estar passando uma neste momento. Vá lá e ligue a TV! Aposto que você também vai olhar, na segunda tela, o que estão comentando a respeito.
Parou! Parou! Está errado. Não é mais assim que acontece. Onde está o erro? Vamos começar de novo sendo mais atual.
"Você aguarda ansiosamente durante o dia todo. Chega a hora do programa. Você está com um olho na TV e outro olho no celular. Você assiste e comenta. Comenta e assiste. Você não quer perder uma curtida ou comentário dos amigos. E você comenta de novo..."
Agora sim. O segundo trecho descreve o fenômeno chamado "segunda tela". É a nova forma de assistir TV da geração sempre conectada. Para esta geração, não basta mais assistir, é preciso comentar, é preciso opinar, é preciso ver as reações de outras pessoas e, claro, sempre durante o programa. É assim durante um jogo de futebol, durante o último capítulo da novela, durante aquela luta da madrugada, um debate pré-eleitoral ou mesmo durante o concurso de novos cantores na TV. Por uns instantes, a "atração principal" chega a ficar em segundo plano. A impressão que dá é que tem mais gente de olho na segunda tela que na primeira. Para alguns, a segunda tela chega a ser até mais interessante que a primeira.
Essa nova forma de ver TV mudou nossos hábitos e a nossa forma de interação. A quantidade de comentários durante os programas é tanta, e em tão pouco tempo, que é possível "assistir" ao programa sem ao menos ligar a TV. Basta olhar a rede social e você sabe o que está ocorrendo naquele jogo que você não está vendo. Você "vê" tudo através dos olhos dos outros. Alguns chegam até a opinar sobre o andamento do programa, mesmo sem vê-lo literalmente.
Lembro de tempos atrás, desde o tempo dos vídeos-cassetes, quando a gente gravava os programas que não poderia assistir para vê-los depois. Hoje, com os registros (quase) permanentes na internet, a "gravação" na segunda tela é instantânea. Um dia desses, por exemplo, utilizei este "recurso". Não costumo ficar acordado para assistir MMA, mas, ao acordar num dia de domingo, bateu a curiosidade de saber o resultado da última luta de Anderson Silva. Poderia ter apenas consultado um site de notícia, mas preferi olhar a timeline em ordem cronológica, desde antes da luta. Acompanhei cada round e o desempenho dos lutadores somente pelos comentários de quem assistia à luta. Fiquei sabendo tudo como ocorreu, quem estava melhor a cada momento, até o resultado final. Praticamente assisti a um "vídeo tape".
Fico curioso de saber quanto tempo as pessoas que costumam usar a segunda tela, efetivamente, conseguem assistir na primeira tela. Por exemplo, num jogo de futebol, quanto tempo de uma partida de noventa minutos você está olhando para TV ao invés de olhando o celular, ou seja, quanto tempo você realmente viu do jogo? Arrisco-me a dizer que é meio a meio. Chega a ser engraçado: você esperou tanto por aquele jogo e só viu 45 minutos. Os outros 45 minutos você estava de olho na segunda tela, escrevendo ou lendo. Coitados dos patrocinadores, que pagam milhões para estampar suas marcas em volta do campo. Pagam por duas horas de exposição e são vistos por metade do tempo. Mas você também não ria deles. Você também caiu nessa: pagou caro pelo pay-per-view e viu só metade do jogo. :)
Os veículos de comunicação já há algum tempo se adaptaram a esse novo comportamento do seu público. Hoje, alguns programas de TV costumam mostrar na tela os comentários dos telespectadores, escritos, claro, nas redes sociais. Antigamente, alguns programas, quando tinham alguma interação com o público, pediam para o telespectador ligar para um número de telefone; hoje pedem para "curtir" sua página ou deixar uma mensagem. De certa forma, perceberam que seu público olha para outra tela e busca a atenção dele, trazendo-o de volta para a primeira.
Uma outra curiosidade me vem a mente: se as pessoas não estão olhando constantemente para a TV, como podem opinar com alguma precisão em rede social? Não é verdade? Lembro logo do tempo da escola, quando a professora dizia: "primeiro, prestem atenção, depois vocês copiam". Em outras palavras, com a atenção dividida, a chance de não compreender a cena, o lance, o acontecimento é enorme. E esse ruído se reflete na qualidade dos comentários. Em programas de entretenimento,não chega a ser tão problemático, mas, e nos programas mais "sérios"? Num programa de entrevista, por exemplo, ou num debate político? Como opinar sobre algo que você não prestou atenção, ou seja, que você não compreendeu direito? E como faz quando, ao invés dos telespectadores, são os "artistas" da TV que, enquanto estão apresentando o programa, simultaneamente, também estão de olho na segunda tela? Em determinado canal de TV, por exemplo, o comentarista do jogo de futebol divide seu tempo comentando a partida e lendo alguns comentários da rede social. Com a atenção dividida, é capaz de sua interpretação da partida ser tão imprecisa quando dos telespectadores.
A interação social vem mudando muita coisa no mundo. Essa nova forma de ver TV é apenas um exemplo desta mudança. A segunda tela já se incorporou de um jeito em nossos hábitos que praticamente não nos demos conta. Quando percebemos, ela já estava ali. Este artigo trouxe alguns exemplos de situações que já se incorporaram no nosso cotidiano e algumas reflexões a respeito. Os canais de documentários estão cheios de reportagens sobre a segunda tela. Assista algumas e veja outras reflexões sobre o tema. Se você ligar a TV agora, pode até estar passando uma neste momento. Vá lá e ligue a TV! Aposto que você também vai olhar, na segunda tela, o que estão comentando a respeito.
domingo, 31 de agosto de 2014
O racismo e os novos valores da sociedade
Mais um episódio de racismo no futebol chamou a atenção da mídia esta semana. Atos racistas são, já há algum tempo (e com razão), cada vez mais questionados pela nossa sociedade. No entanto, o que mais me marcou não foi o ato em si, a repercussão do caso ou a crucificação pública da menina flagrada cometendo os insultos, mas uma reflexão dos valores da sociedade provocada pelo episódio.
O racismo é um crime dos mais lesivos à dignidade das pessoa. Está presente há anos em nosso meio, anterior mesmo "ao tempo em que King Kong era um saguim". Felizmente, grande parte das pessoas já não aceita os racistas com a mesma tolerância que antigamente. Mesmo ainda não suficiente para extinguir atos racistas, percebe-se que um novo valor vem sendo consolidado. A grande repercussão negativa de episódios assim são, aparentemente, indícios disso.
Da mesma forma como vem acontecendo com o racismo, já vemos mudanças de comportamentos da sociedade referentes a não aceitação de alguns poucos atos similares e igualmente denigrentes: homofobia e bullying são exemplos. É verdade que os casos de racismo, homofobia e bullying se tornaram até mais evidentes com as redes sociais, no entanto a repercussão negativa deles também tem sido alavancada pelas próprias redes. Em outras palavras, se as redes facilitam a proliferação desses comportamentos, elas igualmente provocam uma discussão sobre o tema que é de grande contribuição para que a sociedade possa refletir, mudar conceitos e formar novos valores.
Quase mudando de assunto (sem sair do tema), também chama a atenção que alguns comportamentos passaram a ser recriminados pela coletividade de forma veemente, enquanto outros ainda nem tanto. Por exemplo, xingar alguém em rede social de macaco se tornou caso de polícia, mas chamar alguém de homossexual aparentemente não choca tanto. Ora, o primeiro caso é de racismo e o segundo de homofobia, não é mesmo? Não deveriam ser tratados da mesma forma? Aliás, por que opção sexual é um xingamento? Bom, discutamos isso em outro texto.
Voltemos ao tema no contexto do futebol: jogadores do time adversário são xingados pela torcida local desde o aquecimento até o final de uma partida. São chamados de cabeças-chatas ou paraíbas (no caso de jogadores de times nordestinos), bambis, barbies e viados (homofobia), índios (no caso de jogadores de estados da região Norte), etc... Torcedores também fazem isso, xingando uns aos outros. Não vemos maiores repercussões por estes xingamento. São isolados os casos em que jogadores foram a uma delegacia denunciarem terem sido chamados de "paraíba" ou de "bicha". Aparente e estranhamente, é permitido xingar de quase tudo, exceto se o xingamento for racista.
Nas redes sociais, comportamentos semelhantes acontecem. Se você discutir com alguém em rede social e xingá-lo, o episódio terá grandes de chances de repercutir apenas como um "simples xingamento" no calor de uma discussão, mas se chamá-lo de preto, tende a virar processo por racismo. Ainda vemos algumas repercussões negativas envolvendo xenofobia ou homofobia, mas em grau bem menor que nos casos de racismo. Bem menor, é verdade, mas, pelo menos, já começam a acontecer.
No fim das contas, todos os casos citados envolvem injúria, discriminação ou rebaixamento das vítimas. Todos os esteriótipos atribuídos a alguém visam denegrir sua condição, seja por racismo, xenofobia, homofobia, condição social, sexo, deficiência física ou qualquer outro atributo. Felizmente, a sociedade já está "tomando partido" de algumas causas e considerando determinados comportamentos inadequados. Isso é bom e mostra que estamos em um processo de evolução. Falta atentarmos para outras situações e levantarmos também outras bandeiras. Tudo em nome do respeito e da dignidade da pessoa humana.
O racismo é um crime dos mais lesivos à dignidade das pessoa. Está presente há anos em nosso meio, anterior mesmo "ao tempo em que King Kong era um saguim". Felizmente, grande parte das pessoas já não aceita os racistas com a mesma tolerância que antigamente. Mesmo ainda não suficiente para extinguir atos racistas, percebe-se que um novo valor vem sendo consolidado. A grande repercussão negativa de episódios assim são, aparentemente, indícios disso.
Da mesma forma como vem acontecendo com o racismo, já vemos mudanças de comportamentos da sociedade referentes a não aceitação de alguns poucos atos similares e igualmente denigrentes: homofobia e bullying são exemplos. É verdade que os casos de racismo, homofobia e bullying se tornaram até mais evidentes com as redes sociais, no entanto a repercussão negativa deles também tem sido alavancada pelas próprias redes. Em outras palavras, se as redes facilitam a proliferação desses comportamentos, elas igualmente provocam uma discussão sobre o tema que é de grande contribuição para que a sociedade possa refletir, mudar conceitos e formar novos valores.
Quase mudando de assunto (sem sair do tema), também chama a atenção que alguns comportamentos passaram a ser recriminados pela coletividade de forma veemente, enquanto outros ainda nem tanto. Por exemplo, xingar alguém em rede social de macaco se tornou caso de polícia, mas chamar alguém de homossexual aparentemente não choca tanto. Ora, o primeiro caso é de racismo e o segundo de homofobia, não é mesmo? Não deveriam ser tratados da mesma forma? Aliás, por que opção sexual é um xingamento? Bom, discutamos isso em outro texto.
Voltemos ao tema no contexto do futebol: jogadores do time adversário são xingados pela torcida local desde o aquecimento até o final de uma partida. São chamados de cabeças-chatas ou paraíbas (no caso de jogadores de times nordestinos), bambis, barbies e viados (homofobia), índios (no caso de jogadores de estados da região Norte), etc... Torcedores também fazem isso, xingando uns aos outros. Não vemos maiores repercussões por estes xingamento. São isolados os casos em que jogadores foram a uma delegacia denunciarem terem sido chamados de "paraíba" ou de "bicha". Aparente e estranhamente, é permitido xingar de quase tudo, exceto se o xingamento for racista.
Nas redes sociais, comportamentos semelhantes acontecem. Se você discutir com alguém em rede social e xingá-lo, o episódio terá grandes de chances de repercutir apenas como um "simples xingamento" no calor de uma discussão, mas se chamá-lo de preto, tende a virar processo por racismo. Ainda vemos algumas repercussões negativas envolvendo xenofobia ou homofobia, mas em grau bem menor que nos casos de racismo. Bem menor, é verdade, mas, pelo menos, já começam a acontecer.
No fim das contas, todos os casos citados envolvem injúria, discriminação ou rebaixamento das vítimas. Todos os esteriótipos atribuídos a alguém visam denegrir sua condição, seja por racismo, xenofobia, homofobia, condição social, sexo, deficiência física ou qualquer outro atributo. Felizmente, a sociedade já está "tomando partido" de algumas causas e considerando determinados comportamentos inadequados. Isso é bom e mostra que estamos em um processo de evolução. Falta atentarmos para outras situações e levantarmos também outras bandeiras. Tudo em nome do respeito e da dignidade da pessoa humana.
sábado, 12 de julho de 2014
Somos todos argentinos
Desde que a "Copa das Copas" teve seus finalistas definidos, sem o Brasil, não é surpresa para quem ficou a torcida da grande maioria dos brasileiros. Para a Alemanha? Não. Na verdade, contra a Argentina.
Para muitos, ver a Argentina campeã, em solo brasileiro, seria um pesadelo. Por que? Motivos são o que não faltam. Nas palavras de vários brasileiros, "os argentinos são muito chatos", "eles não gostam do Brasil", "torcem contra nós", "fazem piada dos brasileiros", "são maleducados e fazem muita bagunça"... Você concorda que argentino é rival, maleducado, chato, faz piada e torce contra nós? Boa parte deles são assim mesmo e fazem tudo isso. No entanto, eles fazem com o Brasil o mesmo que nós fazemos reciprocamente. São exatamente como nós.
Interessante: os diversos adjetivos que os brasileiros usam para desqualificar os argentinos, e para justificar a torcida contra eles, podem ser aplicados aos brasileiros. Afinal, nós somos chatos com eles, dizemos que não gostamos deles, fazemos piada com eles e não somos nenhum exemplo de boa educação. Criamos uma rivalidade igual a deles conosco e que, a cada dia, é incentivada pelos meios de comunicação. Quantas propagandas na TV vemos explorarem esse sentimento para fazer chacota com argentinos? É a Skol mandando os argentinos para uma ilha deserta. É Romário mandando dois pés esquerdos de Havaianas para Maradona, e por aí vai. Alguns podem dizer que é só rivalidade futebolística. Será? Talvez. A certeza é que, mesmo sem nunca conhecer um único argentino, muitos brasileiros repetem esses mesmos adjetivos pejorativos atribuídos aos argentinos.
E você? Por que enxerga os argentinos de forma depreciativa? É só futebol ou resposta ao que eles sentem por nós? De fato, quando fazemos piada, discriminamo-os ou os vemos como rival, apenas repetimos seu comportamento. Ou seja, assumimos um comportamento que nós mesmos recriminamos. No final, nos tornamos iguais a eles. Somos todos iguais. Somos todos argentinos.
Para muitos, ver a Argentina campeã, em solo brasileiro, seria um pesadelo. Por que? Motivos são o que não faltam. Nas palavras de vários brasileiros, "os argentinos são muito chatos", "eles não gostam do Brasil", "torcem contra nós", "fazem piada dos brasileiros", "são maleducados e fazem muita bagunça"... Você concorda que argentino é rival, maleducado, chato, faz piada e torce contra nós? Boa parte deles são assim mesmo e fazem tudo isso. No entanto, eles fazem com o Brasil o mesmo que nós fazemos reciprocamente. São exatamente como nós.
Interessante: os diversos adjetivos que os brasileiros usam para desqualificar os argentinos, e para justificar a torcida contra eles, podem ser aplicados aos brasileiros. Afinal, nós somos chatos com eles, dizemos que não gostamos deles, fazemos piada com eles e não somos nenhum exemplo de boa educação. Criamos uma rivalidade igual a deles conosco e que, a cada dia, é incentivada pelos meios de comunicação. Quantas propagandas na TV vemos explorarem esse sentimento para fazer chacota com argentinos? É a Skol mandando os argentinos para uma ilha deserta. É Romário mandando dois pés esquerdos de Havaianas para Maradona, e por aí vai. Alguns podem dizer que é só rivalidade futebolística. Será? Talvez. A certeza é que, mesmo sem nunca conhecer um único argentino, muitos brasileiros repetem esses mesmos adjetivos pejorativos atribuídos aos argentinos.
E você? Por que enxerga os argentinos de forma depreciativa? É só futebol ou resposta ao que eles sentem por nós? De fato, quando fazemos piada, discriminamo-os ou os vemos como rival, apenas repetimos seu comportamento. Ou seja, assumimos um comportamento que nós mesmos recriminamos. No final, nos tornamos iguais a eles. Somos todos iguais. Somos todos argentinos.
terça-feira, 24 de junho de 2014
Às personalidades fortes, o mundo pertence
Todos somos diferentes, mas existe uma tendência dominante em procurarmos fazer tudo igual. Criamos padrões de vida, modos de convivência, etiquetas, estilos a serem copiados e nos aprisionamos. Sim, nos aprisionamos. Fazemos o que o mundo pede e não o que gostaríamos de fazer. Viramos escravos do mundo pela simples falta de coragem de sermos o que somos ou de buscarmos o que queremos. É preciso ter personalidade para quebrar as algemas. Ter personalidade forte ou personalidade fraca é o determinante para sua escravidão ou sua liberdade.
Pessoas de personalidade fraca vestem-se como os outros se vestem. Usam roupas que não gostam só porque os outros estarão vestidos daquela forma. Pessoas de personalidade forte se vestem do jeito que se sentem bem, mesmo que não seja do mesmo jeito dos outros. Vestem-se de forma diferente, mas não de forma inadequada. Ventem-se de acordo com a ocasião, sim, mas do seu jeito. Que mal tem em usar um terno verde quando todos estão com escuros, ou mesmo um tênis, quando todos estão com seus sapatos apertando o dedão?
Pessoas de personalidade fraca morrem de vontade de comer uma galinha à cabidela, mas pedem ao garçom outro prato porque seus amigos pediram filé mignon. Tomam o mesmo whisky ruim que seu colega pediu e quase vomitam de desgosto, tudo porque não tiveram personalidade de pedir aquela cachaça barata que tanto adoram. Já pessoas de personalidade forte não teriam vergonha, nem se sentiram menores por pedir o prato ou a bebida que os fazem sentir-se bem.
Pessoas de personalidade fraca inventam desculpas para recusar um convite dos amigos. Dizem que tiveram um problema de última hora ou que estão com muito trabalho acumulado ou que estão com um familiar adoentado. Pessoas com personalidade forte não teriam vergonha e seriam honestos o suficiente para dizerem a verdade: "obrigado, mas não vou porque não gosto" ou "obrigado, mas hoje vou assistir um filme com minha esposa".
Pessoas de personalidade fraca compram o que não precisam, porque, para elas, seria vergonhoso comprar menos que os outros. Compram um celular multi-funcional, mesmo que o utilize apenas para telefonar. Compram um TV de 40 polegadas, mesmo que fique exageradamente grande em seu minúsculo apartamento, cujo paisagista havia recomendado uma TV um pouco menor. Compram um carro com motor 1.6, mesmo que nunca utilize fora da cidade. Compram tudo isso porque se sentem mal em comprar algo inferior ao que seu vizinho, amigo ou parente. Diferentemente destas, pessoas de personalidade forte compram o que lhes deixam satisfeitos, não importando se custa mais ou menos do que a maioria compra. Estas tanto podem fazer questão de escolherem o quarto de hotel com diária mais cara como também comprarem uma televisão CRT (antigas TVs de tubo) porque uma mais moderna não considera interessante. Pessoas com personalidade forte compram coisas caras sim e não se importam de pagar caro por aquilo que o deixam satisfeitos, no entanto não pagam um centavo naquilo que não lhes é interessante.
Pessoas de personalidade fraca convivem com pessoas que não gostam. Vão à festas que não querem ir. Fazem coisas que não gostariam de fazer. Acham sempre que tem que fazer algum sacrifício porque precisam sentirem-se aceitas. São pessoas que não sabem dizer "não". Pessoas de personalidade forte sabem escolher pessoas, locais para ir e são honestas com outros e consigo mesmas: dizem sim para sua felicidade.
Pessoas de personalidade fraca precisam mostrar algo para os outros. Preocupam-se mais em fotografar que curtir a festa. Procuram mais "contar para os outros" que "viver o momento". Pessoas de personalidade forte valorizam quem está sempre ao seu lado. Vivem para quem é importante, mesmo que o resto do mundo não saiba de seus sacrifícios e nem suas conquistas. Elas sabem que outros não precisam nem saber.
Pessoas de personalidade fraca precisam provar algo. Não admitem que os outros pensem diferente. Querem impor suas opiniões. Pessoas de personalidade forte não precisam provar nada a ninguém. Não se preocupam se são julgadas de forma equivocada. Elas fazem questão de mostrar seu ponto de vista, mesmo que não sejam compreendidos. E quem discordar, que "passe bem".
Pessoas de personalidade fraca têm vergonha de si mesmas e acabam por fingirem ser o que não são. Contam sempre vantagens e escondem do mundo suas frustrações. Pessoas de personalidade forte fazem tudo diferente. Não precisam de holofotes. A diferença fundamental é que as pessoas de personalidade fraca tem vergonha de suas escolhas ou vergonha de mostrarem como são, pois preocupam-se demais com as opiniões alheias. Já as pessoas de personalidade forte sabem exatamente o que querem e colocam suas vontades acima das expectativas dos demais. Sentem-se bem consigo mesmas e vivem para serem felizes, não para fazerem o mundo feliz.
O mundo poderia até ser dividido entre os de personalidade forte e os de fraca, mas ainda existe um terceiro grupo: as pessoas "sem personalidade". Estas são as piores. Se as pessoas de personalidade fraca se preocupam mais com os outros que com si mesmas, as pessoas sem personalidade preocupam apenas com outros. Vivem olhando e julgando como os outros vivem, o que compram, o que fazem, o que não fazem, o que poderiam ou deveriam fazer. São pessoas que criam seus padrões e passam a vida julgando os que saem destes padrões por elas mesmas criados. Ficam com os olhos voltados constantemente para grama do vizinho, seja para achá-la mais verde ou mais seca que a suas. Olham para os outros e esquecem de olhar para si. São pessoas perigosas, pois é exatamente o seu comportamento que atinge as pessoas de personalidade fraca. Afinal, pessoas de personalidade fraca não agiriam como agem se não fossem os comentários maldosos de pessoas sem personalidade.
Pessoas de personalidade forte estão aí para se sobressair às sem personalidade. Enquanto os fracos vivem na escravidão, dominados pelos julgamentos dos sem personalidades, os fortes estão livres. Infelizmente, os fortes não são maioria, mas ainda bem que eles existem. Afinal, num mundo cheio de contradições, só os fortes se vencerão. O mundo é dos fortes.
quinta-feira, 12 de junho de 2014
Curiosidades dos campeões mundiais, na nossa Copa
Chegou a Copa. Depois de sete anos de espera, desde o anúncio de que o Brasil seria a sede até o dia 12 de junho de 2014, agora a bola finalmente vai rolar. Depois de obras prometidas, atrasos, puxões de orelhas da FIFA, protestos, enfim, chegou a nossa Copa. E quem será o campeão? Só saberemos daqui a 31 dias. Apesar de disso, é possível observar um pouco da história e das curiosidades dos campeões mundiais para podermos fazer algumas previsões. Vamos a elas!
Até hoje são oito os países vencedores de Copas. Três sul-americanos: Brasil (5x), Argentina(2x) e Uruguai(2x); e cinco europeus: Itália (4x), Alemanha (3x), Inglaterra(1x), França(1x) e Espanha(1x). Somando tudo, contamos 19 Copas, sendo 10 vencidas pelos europeus e 9 pelos sul-americanos. Se observarmos os locais onde as Copas foram realizadas, veremos 10 na Europa, 7 nas Américas, 1 na Ásia e 1 África. Olha a primeira curiosidade: os europeus tem mais títulos, mas também tiveram mais Copas em casa. Coincidentemente, 10 títulos e 10 Copas em casa.
Por falar em jogar em casa, jogar a Copa no seu próprio continente tem sido determinante para os países campeões. Das dez Copas disputadas na Europa, simplesmente nove foram vencidas pelos europeus. A exceção foi justamente a Copa de 1958, a primeira vencida pelo Brasil. Se lembrarmos que os europeus venceram dez Copas, sendo nove em casa, vemos que apenas uma vez venceram fora da Europa: a exceção foi justamente a última Copa, vencida pela Espanha, na África. Brasil e Espanha, aliás, compartilham a mesma exceção: foram os únicos países a vencerem fora de seu continente: o Brasil venceu na Europa em 1958 e na Ásia em 2002; já a Espanha venceu em 2010, como já dito, na África. Chama a atenção este fato: das dezenove Copas, apenas essas três não foram vencidas por um país do mesmo continente. Em todas as sete Copas realizadas nas Américas (do Norte e do Sul), o campeão sempre foi americano (sul-americano para ser mais preciso): três vezes Brasil (no Chile, no México e nos EUA), duas vezes Argentina (na Argentina e no México) e duas vezes Uruguai (no Uruguai e no Brasil). Jamais os europeus venceram nas Américas.
Se por um lado, Brasil e Espanha podem se orgulhar de serem os únicos a ganharem fora de seu continente, eles também tem mais uma coincidência, desta vez nada agradável: são os únicos campeões mundiais que jamais venceram a Copa realizada no seu país. O Brasil perdeu em casa em 1950 e a Espanha, em 1982. Os demais seis países campeões tiveram o prazer de vencer como país sede: a Itália ganhou em casa 1934, a Alemanha, em 1974; a França, em 1998; a Inglaterra, em 1966; a Argentina, em 1978 e o Uruguai, em 1930.
Se seis dos oito campeões tiveram a honra de ganhar em casa, três destes também tiveram o desprazer de perder em casa, juntamente com Brasil e Espanha. A Alemanha perdeu em 2006, a Itália em 1990 e a França em 1938. Totalizando, assim, cinco campeões mundiais com Copas perdidas em casa. Se o Brasil até hoje sofre com o trauma de 1950, as estatísticas dão um alento: até hoje, todos os campeões mundiais que sediaram duas Copas ganharam uma e perderam uma também (Alemanha, França e Itália). Nenhum campeão mundial ganhou as duas nem perdeu as duas realizadas em casa. Brasil e Espanha, que também perderam em casa, só sediaram a Copa uma vez. Será a vez do Brasil ganhar a sua, na segunda tentativa em casa?
Como se vê, os números são bem favoráveis a sexta conquista brasileira. Em resumo, dentre os campeões mundiais: os europeus só têm ganho na Europa; os sul-americanos levantaram todas as taças disputadas nas Américas; quem jogou duas Copas em casa, ganhou uma delas; e, em apenas três Copas, o campeão não foi do próprio continente, sendo, destas, duas vencidas pelo Brasil.
Os números são esses. Sabemos que estatísticas não entram em campo muito menos decidem o campeão, mas, ao menos, servem como curiosidade ou também para aguçar a mente dos supersticiosos. E no futebol, o que não falta é superstição. Se as estatísticas podem prever alguma coisa, não é improvável pensarmos na final dos sonhos: Brasil x Argentina, no Maracanã. Alguém duvida? Que na nossa Copa, vença o melhor! E que o melhor seja o Brasil!
Até hoje são oito os países vencedores de Copas. Três sul-americanos: Brasil (5x), Argentina(2x) e Uruguai(2x); e cinco europeus: Itália (4x), Alemanha (3x), Inglaterra(1x), França(1x) e Espanha(1x). Somando tudo, contamos 19 Copas, sendo 10 vencidas pelos europeus e 9 pelos sul-americanos. Se observarmos os locais onde as Copas foram realizadas, veremos 10 na Europa, 7 nas Américas, 1 na Ásia e 1 África. Olha a primeira curiosidade: os europeus tem mais títulos, mas também tiveram mais Copas em casa. Coincidentemente, 10 títulos e 10 Copas em casa.
Por falar em jogar em casa, jogar a Copa no seu próprio continente tem sido determinante para os países campeões. Das dez Copas disputadas na Europa, simplesmente nove foram vencidas pelos europeus. A exceção foi justamente a Copa de 1958, a primeira vencida pelo Brasil. Se lembrarmos que os europeus venceram dez Copas, sendo nove em casa, vemos que apenas uma vez venceram fora da Europa: a exceção foi justamente a última Copa, vencida pela Espanha, na África. Brasil e Espanha, aliás, compartilham a mesma exceção: foram os únicos países a vencerem fora de seu continente: o Brasil venceu na Europa em 1958 e na Ásia em 2002; já a Espanha venceu em 2010, como já dito, na África. Chama a atenção este fato: das dezenove Copas, apenas essas três não foram vencidas por um país do mesmo continente. Em todas as sete Copas realizadas nas Américas (do Norte e do Sul), o campeão sempre foi americano (sul-americano para ser mais preciso): três vezes Brasil (no Chile, no México e nos EUA), duas vezes Argentina (na Argentina e no México) e duas vezes Uruguai (no Uruguai e no Brasil). Jamais os europeus venceram nas Américas.
Se por um lado, Brasil e Espanha podem se orgulhar de serem os únicos a ganharem fora de seu continente, eles também tem mais uma coincidência, desta vez nada agradável: são os únicos campeões mundiais que jamais venceram a Copa realizada no seu país. O Brasil perdeu em casa em 1950 e a Espanha, em 1982. Os demais seis países campeões tiveram o prazer de vencer como país sede: a Itália ganhou em casa 1934, a Alemanha, em 1974; a França, em 1998; a Inglaterra, em 1966; a Argentina, em 1978 e o Uruguai, em 1930.
Se seis dos oito campeões tiveram a honra de ganhar em casa, três destes também tiveram o desprazer de perder em casa, juntamente com Brasil e Espanha. A Alemanha perdeu em 2006, a Itália em 1990 e a França em 1938. Totalizando, assim, cinco campeões mundiais com Copas perdidas em casa. Se o Brasil até hoje sofre com o trauma de 1950, as estatísticas dão um alento: até hoje, todos os campeões mundiais que sediaram duas Copas ganharam uma e perderam uma também (Alemanha, França e Itália). Nenhum campeão mundial ganhou as duas nem perdeu as duas realizadas em casa. Brasil e Espanha, que também perderam em casa, só sediaram a Copa uma vez. Será a vez do Brasil ganhar a sua, na segunda tentativa em casa?
Como se vê, os números são bem favoráveis a sexta conquista brasileira. Em resumo, dentre os campeões mundiais: os europeus só têm ganho na Europa; os sul-americanos levantaram todas as taças disputadas nas Américas; quem jogou duas Copas em casa, ganhou uma delas; e, em apenas três Copas, o campeão não foi do próprio continente, sendo, destas, duas vencidas pelo Brasil.
Os números são esses. Sabemos que estatísticas não entram em campo muito menos decidem o campeão, mas, ao menos, servem como curiosidade ou também para aguçar a mente dos supersticiosos. E no futebol, o que não falta é superstição. Se as estatísticas podem prever alguma coisa, não é improvável pensarmos na final dos sonhos: Brasil x Argentina, no Maracanã. Alguém duvida? Que na nossa Copa, vença o melhor! E que o melhor seja o Brasil!
domingo, 25 de maio de 2014
Pedalar é preciso; facilitar as pedaladas também
A cada dia que passa, sentimo-nos cada vez mais vítimas da mobilidade urbana deficiente de nossas cidades. Vítimas é a palavra correta, pois nossa saúde é que sofre nesta situação: estresse, cansaço, ... e por aí vai. Às vezes me pego pensando o que poderia ser feito para mudar isso. Há pouco mais de um ano, registrei algumas reflexões sobre esse assunto no artigo "A mobilidade urbana no Brasil tem solução?". Nada mudou. Outras vezes comparo as cidades brasileiras com as de outros países e os exemplos de sucesso que lá existem, mas, quando observo a nossa realidade (mercado automobilístico que incentiva a compra de carros, clima tropical, falta de estrutura para transportes alternativos, falta de segurança e educação), praticamente perco as esperanças de melhorarmos a mobilidade.
Esta semana, numa dessas reflexões sobre a mobilidade, resolvi testar uma nova experiência de mobilidade. Sempre fiquei atento aos projetos Porto Leve e Bike PE, que foram implantados na cidade de Recife, há quase dois anos, para incentivar o uso e o compartilhamento de bicicletas como forma de transporte alternativo. Por este sistema, diversas estações são espalhadas pela cidade, de onde os usuários podem retirar bicicletas, fazer deslocamentos pela cidade e devolvê-las em outra estação. É uma ideia legal e sustentável, mas que esbarra em um item estrutural básico da cidade para funcionar perfeitamente: a ausência de ciclovias. No auge de minha inquietude, esta semana, enveredei por testar o sistema pela primeira vez. A aventura está descrita a seguir.
Fiz meu cadastro e retirei uma bike numa das estações do Recife Antigo. Eram por volta das 17h30, horário de trânsito intenso. O destino: Olinda, na estação (desta cidade) mais distante possível do ponto de partida. Comecei o trajeto passando pelas avenidas Cais do Apolo, Norte e Cruz Cabugá. Nestas avenidas, o tráfego lento deixava a bicicleta mais veloz que os carros e, como os carros não andavam, faltava espaço para mim na faixa lateral da via. Por diversas vezes, foi preciso parar na via ou subir na calçada para continuar. Cheguei à primeira conclusão: por incrível que pareça, é melhor para o ciclista trafegar em vias onde o tráfego flui com facilidade que em vias congestionadas, pois consegue-se pegar a faixa lateral com mais facilidade.
Após a Cruz Cabugá, cheguei à Avenida Olinda. É uma avenida larga com trechos de três a seis faixas, porém é um trecho terrível para os motoristas, pois, do Shopping Tacaruna ao bairro do Varadouro, neste horário, perde-se quase 30 minutos para trafegar por apenas 2,5 quilômetros. O começo da Avenida Olinda foi tranquilo, mas, logo depois, o trânsito simplesmente pára e os mesmos problemas dos trechos anteriores se repetiram. Enquanto o tráfego fluía, um novo problema detectado: já era noite e as bicicletas do projeto não possuem luzes indicativas para alertar os motoristas da sua presença na via. Perigo para o ciclista! É uma falha que precisa ser corrigida, pois o sistema de compartilhamento de bicicletas se propõe a funcionar até às 23 horas.
Após chegar ao Varadouro, o tráfego fluiu bem tanto mim e quanto para os motoristas. Por cerca de mais 2 km, ainda foi preciso dividir espaço com os carros, até chegar à ciclovia da Avenida Marcus Freire, a primeira de todo o trajeto. Ali chegava ao verdadeiro "paraíso dos ciclista": uma ciclovia de verdade numa avenida à beira-mar. Após pedaladas velozes e tranquilas, cheguei à última estação, onde tive que devolver a bicicleta, totalizando o percurso de 9 km em 40 minutos. Acredite: um carro, fazendo o mesmo percurso no mesmo horário, levaria bem mais tempo para percorrê-lo. Difícil acreditar, difícil de aceitar, mas é verdade. Uma pena que tinha chegado ao fim. Se existissem outras estações e ciclovias mais adiante, teria ido mais distante e percorrido mais 9 km tranquilamente. O melhor de tudo, ao final, foi a sensação de prazer imensa ao terminar o percurso. Sensação, esta, que não lembro nunca ter sentido ao dirigir. Afinal, estava divertindo-me pedalando e não sofrendo com o trânsito de costume.
Esta experiência posso chamar de uma aventura. Dela, algumas conclusões e constatações podem ser obtidas:
Dos governantes, esperam-se melhorias urbanas, não apenas com mais ciclovias, mas também, por exemplo, com a construção de bicicletários, afinal, onde estacionar as "magrelas" ao chegar ao destino? Aliás, em ano de eleição, como este de 2014, quantos candidatos estão propondo projetos deste tipo? Lembremos disso. Das empresas, repartições e prédios públicos, espera-se estruturas que facilitem a vida do ciclista. Por exemplo, estes dispõem de chuveiro ou dispõe de armários? O funcionário ou visitante que se propor a se deslocar de bicicleta, especialmente em cidades de clima quente, precisará tomar um bom banho ao chegar ao destino, não é mesmo? Já da população, especialmente dos motoristas, espera-se mais respeito aos ciclistas. Muitos desconhecem (ou desrespeitam mesmo) o Código de Trânsito Brasileiro, que diz que o ciclista, no bordo direito da pista, tem prioridade, e costumam buzinar ou não manter a distância de segurança. Falta educação.
Enfim, após essa experiência, continuo descrente com a solução para os problemas de mobilidade urbana no Brasil e vejo que o panorama pouco mudará nos próximos anos. Porém, saio convencido de que pequenas ações, como o incentivo aos deslocamentos sem carro, em especial, com o uso de bicicletas são viáveis e ajudam, pelo menos, a amenizar o caos nos deslocamentos urbanos.
Esta semana, numa dessas reflexões sobre a mobilidade, resolvi testar uma nova experiência de mobilidade. Sempre fiquei atento aos projetos Porto Leve e Bike PE, que foram implantados na cidade de Recife, há quase dois anos, para incentivar o uso e o compartilhamento de bicicletas como forma de transporte alternativo. Por este sistema, diversas estações são espalhadas pela cidade, de onde os usuários podem retirar bicicletas, fazer deslocamentos pela cidade e devolvê-las em outra estação. É uma ideia legal e sustentável, mas que esbarra em um item estrutural básico da cidade para funcionar perfeitamente: a ausência de ciclovias. No auge de minha inquietude, esta semana, enveredei por testar o sistema pela primeira vez. A aventura está descrita a seguir.
Fiz meu cadastro e retirei uma bike numa das estações do Recife Antigo. Eram por volta das 17h30, horário de trânsito intenso. O destino: Olinda, na estação (desta cidade) mais distante possível do ponto de partida. Comecei o trajeto passando pelas avenidas Cais do Apolo, Norte e Cruz Cabugá. Nestas avenidas, o tráfego lento deixava a bicicleta mais veloz que os carros e, como os carros não andavam, faltava espaço para mim na faixa lateral da via. Por diversas vezes, foi preciso parar na via ou subir na calçada para continuar. Cheguei à primeira conclusão: por incrível que pareça, é melhor para o ciclista trafegar em vias onde o tráfego flui com facilidade que em vias congestionadas, pois consegue-se pegar a faixa lateral com mais facilidade.
Após a Cruz Cabugá, cheguei à Avenida Olinda. É uma avenida larga com trechos de três a seis faixas, porém é um trecho terrível para os motoristas, pois, do Shopping Tacaruna ao bairro do Varadouro, neste horário, perde-se quase 30 minutos para trafegar por apenas 2,5 quilômetros. O começo da Avenida Olinda foi tranquilo, mas, logo depois, o trânsito simplesmente pára e os mesmos problemas dos trechos anteriores se repetiram. Enquanto o tráfego fluía, um novo problema detectado: já era noite e as bicicletas do projeto não possuem luzes indicativas para alertar os motoristas da sua presença na via. Perigo para o ciclista! É uma falha que precisa ser corrigida, pois o sistema de compartilhamento de bicicletas se propõe a funcionar até às 23 horas.
Após chegar ao Varadouro, o tráfego fluiu bem tanto mim e quanto para os motoristas. Por cerca de mais 2 km, ainda foi preciso dividir espaço com os carros, até chegar à ciclovia da Avenida Marcus Freire, a primeira de todo o trajeto. Ali chegava ao verdadeiro "paraíso dos ciclista": uma ciclovia de verdade numa avenida à beira-mar. Após pedaladas velozes e tranquilas, cheguei à última estação, onde tive que devolver a bicicleta, totalizando o percurso de 9 km em 40 minutos. Acredite: um carro, fazendo o mesmo percurso no mesmo horário, levaria bem mais tempo para percorrê-lo. Difícil acreditar, difícil de aceitar, mas é verdade. Uma pena que tinha chegado ao fim. Se existissem outras estações e ciclovias mais adiante, teria ido mais distante e percorrido mais 9 km tranquilamente. O melhor de tudo, ao final, foi a sensação de prazer imensa ao terminar o percurso. Sensação, esta, que não lembro nunca ter sentido ao dirigir. Afinal, estava divertindo-me pedalando e não sofrendo com o trânsito de costume.
Esta experiência posso chamar de uma aventura. Dela, algumas conclusões e constatações podem ser obtidas:
- É duro viver numa cidade (ou região metropolitana) onde um carro trafega mais lentamente que uma bicicleta.
- É preciso incentivar o uso de bicicletas para diminuir a quantidade de carros nas ruas e proporcionar melhor qualidade de vida.
- O aumento no uso de bicicletas só será possível com infraestrutura adequada. Não dá para esperar que muita gente sinta-se confortável ou segura ao pedalar dividindo o mesmo espaço com carros. Cadê as ciclovias, governantes?!
- O projeto de compartilhamento público de bicicletas do Recife merece aplausos, mas precisa de ajustes e mais apoio. Bicicletas melhores, com luzes indicativas para uso noturno e capacetes proporcionam mais segurança. Mais estações periféricas permitiriam trajetos maiores.
Dos governantes, esperam-se melhorias urbanas, não apenas com mais ciclovias, mas também, por exemplo, com a construção de bicicletários, afinal, onde estacionar as "magrelas" ao chegar ao destino? Aliás, em ano de eleição, como este de 2014, quantos candidatos estão propondo projetos deste tipo? Lembremos disso. Das empresas, repartições e prédios públicos, espera-se estruturas que facilitem a vida do ciclista. Por exemplo, estes dispõem de chuveiro ou dispõe de armários? O funcionário ou visitante que se propor a se deslocar de bicicleta, especialmente em cidades de clima quente, precisará tomar um bom banho ao chegar ao destino, não é mesmo? Já da população, especialmente dos motoristas, espera-se mais respeito aos ciclistas. Muitos desconhecem (ou desrespeitam mesmo) o Código de Trânsito Brasileiro, que diz que o ciclista, no bordo direito da pista, tem prioridade, e costumam buzinar ou não manter a distância de segurança. Falta educação.
Enfim, após essa experiência, continuo descrente com a solução para os problemas de mobilidade urbana no Brasil e vejo que o panorama pouco mudará nos próximos anos. Porém, saio convencido de que pequenas ações, como o incentivo aos deslocamentos sem carro, em especial, com o uso de bicicletas são viáveis e ajudam, pelo menos, a amenizar o caos nos deslocamentos urbanos.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Eu também já fui babaca
A crônica esportiva nacional tem destacado a demonstração de racismo sofrida pelo jogador Tinga, do Cruzeiro, na partida válida pela Copa Libertadores de 2014. A torcida do time peruano, Real Garcilaso, fazia gritos de macaco, sempre que o jogador Tinga, negro, tocava na bola. Foi assim durante boa parte do jogo. O ocorrido repercutiu nas redes sociais, onde famosos e anônimos desaprovaram a atitude e manisfestaram apoio ao jogador. Todas as pessoas de bem devem ter ficado chateadas. Imediatamente, lembrei de um fato semelhante ocorrido há mais de dez anos.
Era o ano de 2002. Náutico x Santa Cruz decidiam o primeiro turno do Campeonato Pernambucano, no estádio dos Aflitos. Naquela noite de quarta-feira, lá estava eu com alguns amigos presentes no estádio. Com os times já em campo, o goleiro Nilson, do Santa Cruz, fazia o seu aquecimento no gol próximo à torcida do Náutico. Nilson era negro e um pouco falastrão. Por este último motivo, caiu logo na "desgraça" com a torcida alvirrubra. Sempre que Nilson pegava na bola, começavam os gritos: "Niiiiilsoooon, Macaaaaco". E durante a partida, os gritos ouvidos eram: "Hu-hu-hu-hu" (imitação de um macaco). Foi assim durante todo o jogo. A torcida em coro com gritos racistas. Eu e meus amigos também participávamos daquele crime.
É, de certa forma, verdade, que os gritos eram muito mais uma provocação a um jogador adversário que um manifestação de racismo. Sim, pois existiam jogadores negros nos dois times. Mas é igualmente verdade que era uma provocação de mal gosto. O goleiro Nilson, sentindo-se humilhado, chegou a abrir um processo contra a torcida por racismo, mas quem iria ser efetivamente punido no meio de tanta gente? Agora vejam como o mundo dá voltas: dois anos depois, Nilson foi contratado pelo Náutico, tornou-se ídolo da torcida e foi campeão pernambucano em 2004. Naquele ano, Nilson só ouvia seu nome ser exaltado pela mesma torcida que tanto o humilhara.
Fica claro que os gritos e as comparações com macaco eram uma provocação a um adversário. Mas era uma provocação humilhante. Racista, sim, pois era possível provocar de outra forma. Com aquele ato, inocente ou conscientemente, estávamos todos transformando o que poderia ser apenas uma festa em um palco onde exaltávamos uma das piores maldades humanas: o preconceito de cor. Sendo bem direto: um comportamento babaca. Naquele ano de 2002, eu era um daqueles babacas.
Mais de dez anos passados e relembrando o fato, fico imaginando como pude participar daquilo. Hoje, minha indignação com o que a torcida peruana fez com o jogador Tinga é proporcional ao tamanho do arrependimento por ter tido, um dia, comportamento semelhante. Felizmente, amadureci o suficiente para reconhecer um erro inconsequente, cometido na juventude, e também amadureci o suficiente para me indignar com tal tipo de comportamento nos dias atuais. Em pleno 2014, a sociedade repete um mal comportamento que a acompanha desde o passado. A babaquice sobrevive ao longo do tempo. Felizmente, babaca não sou mais. Que os bacacas atuais, também não sejam jamais.
sábado, 11 de janeiro de 2014
O "eleitor-torcedor" danoso à sociedade
2014 chegou e, com ele, dois eventos que tendem a dominar os debates durante o ano todo: Copa do Mundo e Eleições. A Copa é o evento máximo do futebol, assunto que é debatido com muita emoção e pouca ou nenhuma razão. Já as eleições, o evento máximo da política, são o assunto a ser debatido com racionalidade e pouca emoção. Pelo menos deveria ser. Na prática, o que muita gente parece fazer é tratar a política e futebol da mesma forma.
Gostaria de poder discutir política de forma imparcial e racional. Participar de uma mesa de debates onde os participantes discutissem as propostas dos candidatos, com seus pontos positivos e negativos. Gostaria que essa mesa discutisse os acertos e erros dos governos passados e dos governos atuais, com opiniões fundamentadas em fatos e não apenas baseada em quem ocupavam os cargos. Gostaria que fosse debatido o que melhorou, o que piorou, porque melhorou e porque piorou e não ouvir coisas do tipo "com este partido no governo, tudo melhorou" ou "com aquele, tudo piorou". Em outras palavras, gostaria que a política fosse debatida com seriedade, como realmente deve ser.
Muitas pessoas parecem tratar a política cada vez mais como futebol. Primeiramente, escolhem um partido (um time) e passam a torcer por ele. Falam maravilhas do seu partido, defendem tudo que seus membros (os jogadores) fazem e falam mal do partido rival (time rival). Para estas pessoas, tudo de ruim que ocorre no país é culpa do partido rival. Para eles, tudo piorou, só houve corrupção e todos eram mal intencionados. Tais pessoas são incapazes de reconhecer qualquer acerto de um governo anteriormente administrado por um partido rival. É como se sentissem vergonha de elogiar uma medida ou ação de um governante em quem não votou ou não simpatize (no futebol, seria como parabenizar um gol do rival).
As redes sociais estão cheias de exemplos de pessoas que agem assim. Para só pegar um exemplo, vejam o comportamento de algumas pessoas nas redes sociais em relação ao partido que hoje governa o país, o PT. Os "a favor" publicam (e elogiam) as medidas do governo, só falam mal do governo anterior do partido "contrário", exibem dados que mostram o crescimento atual do país em algumas áreas, mas nada falam onde o governo vai mal. Pelo contrário, onde vai mal, procuram sempre um lado positivo para defender o partido e justificar o injustificável. Por outro lado, suas críticas são direcionadas somente à administração passada. Os "anti-petistas" fazem o mesmo. São incapazes de comentar onde o país melhorou, não fazem elogios a nenhuma medida ou ação do governo atual reconhecidamente eficazes, mas não deixam passar em branco nenhum erro do governo. Qualquer ação é vista com maus olhos e comentários ácidos. Fecham os olhos para os acertos e gritam bem alto todos os erros. Chegam ao ponto de generalizar e falar inverdades com expressões do tipo "governo desastroso", "pior da história", "piorou o país em todos os setores".
Óbvio que o país melhorou muito nas duas últimas décadas e muito se deve a ações de vários governos. Bons frutos foram plantados nos governos passados e no atual, da mesma forma que muitas sementes podres também foram usadas com resultados desastrosos. Mas tem muita gente mais preocupada em briga de partidos que com suas ações. No fim das contas, todos se parecem torcedores de times futebol: "o meu time é melhor", "o seu time é pior", "o juíz roubou para seu time", "o jogador do meu time é craque", "o seu time teve sorte", "meu jogador fez falta, mas não merecia o cartão vermelho",... Como seria bom se a política fosse discutida com mais responsabilidade. Não é vergonhoso ser imparcial. Não é vergonhoso votar em um candidato e depois criticar seu governo, como também não é vergonhoso elogiar o governo de um candidato a quem você criticava antes da eleição. O comportamento do "eleitor-torcedor" é danoso para a democracia, pois, quando alguém se comporta desta forma, mascara a realidade e influencia outras pessoas a enxergá-la desta forma distorcida. Deixemos nossa paixão somente no futebol. Política é razão. Sejamos cidadãos mais responsáveis. Todos nós teremos a ganhar. Pensemos nisso!
Gostaria de poder discutir política de forma imparcial e racional. Participar de uma mesa de debates onde os participantes discutissem as propostas dos candidatos, com seus pontos positivos e negativos. Gostaria que essa mesa discutisse os acertos e erros dos governos passados e dos governos atuais, com opiniões fundamentadas em fatos e não apenas baseada em quem ocupavam os cargos. Gostaria que fosse debatido o que melhorou, o que piorou, porque melhorou e porque piorou e não ouvir coisas do tipo "com este partido no governo, tudo melhorou" ou "com aquele, tudo piorou". Em outras palavras, gostaria que a política fosse debatida com seriedade, como realmente deve ser.
Muitas pessoas parecem tratar a política cada vez mais como futebol. Primeiramente, escolhem um partido (um time) e passam a torcer por ele. Falam maravilhas do seu partido, defendem tudo que seus membros (os jogadores) fazem e falam mal do partido rival (time rival). Para estas pessoas, tudo de ruim que ocorre no país é culpa do partido rival. Para eles, tudo piorou, só houve corrupção e todos eram mal intencionados. Tais pessoas são incapazes de reconhecer qualquer acerto de um governo anteriormente administrado por um partido rival. É como se sentissem vergonha de elogiar uma medida ou ação de um governante em quem não votou ou não simpatize (no futebol, seria como parabenizar um gol do rival).
As redes sociais estão cheias de exemplos de pessoas que agem assim. Para só pegar um exemplo, vejam o comportamento de algumas pessoas nas redes sociais em relação ao partido que hoje governa o país, o PT. Os "a favor" publicam (e elogiam) as medidas do governo, só falam mal do governo anterior do partido "contrário", exibem dados que mostram o crescimento atual do país em algumas áreas, mas nada falam onde o governo vai mal. Pelo contrário, onde vai mal, procuram sempre um lado positivo para defender o partido e justificar o injustificável. Por outro lado, suas críticas são direcionadas somente à administração passada. Os "anti-petistas" fazem o mesmo. São incapazes de comentar onde o país melhorou, não fazem elogios a nenhuma medida ou ação do governo atual reconhecidamente eficazes, mas não deixam passar em branco nenhum erro do governo. Qualquer ação é vista com maus olhos e comentários ácidos. Fecham os olhos para os acertos e gritam bem alto todos os erros. Chegam ao ponto de generalizar e falar inverdades com expressões do tipo "governo desastroso", "pior da história", "piorou o país em todos os setores".
Óbvio que o país melhorou muito nas duas últimas décadas e muito se deve a ações de vários governos. Bons frutos foram plantados nos governos passados e no atual, da mesma forma que muitas sementes podres também foram usadas com resultados desastrosos. Mas tem muita gente mais preocupada em briga de partidos que com suas ações. No fim das contas, todos se parecem torcedores de times futebol: "o meu time é melhor", "o seu time é pior", "o juíz roubou para seu time", "o jogador do meu time é craque", "o seu time teve sorte", "meu jogador fez falta, mas não merecia o cartão vermelho",... Como seria bom se a política fosse discutida com mais responsabilidade. Não é vergonhoso ser imparcial. Não é vergonhoso votar em um candidato e depois criticar seu governo, como também não é vergonhoso elogiar o governo de um candidato a quem você criticava antes da eleição. O comportamento do "eleitor-torcedor" é danoso para a democracia, pois, quando alguém se comporta desta forma, mascara a realidade e influencia outras pessoas a enxergá-la desta forma distorcida. Deixemos nossa paixão somente no futebol. Política é razão. Sejamos cidadãos mais responsáveis. Todos nós teremos a ganhar. Pensemos nisso!
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
O drama nosso de cada dia na TV
A programação da TV aberta brasileira mudou bastante. Cada vez mais em busca de audiência, não é novidade para ninguém que as grandes emissoras procuram colocar no ar aquilo que as pessoas queiram ver, não importando a qualidade do conteúdo. O importante é prender o telespectador na frente da telinha. Foram anos de experiências e diversos temas foram testados até que parecem ter chegado à formula definitiva para seu sucesso: a exploração do drama pessoal.
Quem tem pelo menos trinta anos deve lembrar de alguns tipos de programas que existiam há anos atrás e que agora desapareceram ou são raros atualmente. Programas de perguntas e respostas, gincanas, show de calouros, paradas de sucesso musical, programas infantis, programas de entrevista, documentários, dentre outros, sumiram e os que sobraram, hoje, são contados a dedo. Em sentido contrário, proliferaram os programas cujo tema principal é contar uma história dramática de algum anônimo ou famoso da última semana. O objetivo é claro: prender a atenção dos telespectadores através da exploração de um momento de dificuldade ou dor do envolvido. Aí proliferam programas inteiros ou alguns quadros de programas como aqueles em que o "bondoso" apresentador reforma a casa ou o carro velho do cidadão, como aquele quadro que explora a saudade da terra natal um de retirante nordestino em São Paulo ou aqueles programas que buscam ser os primeiros a entrevistar a família de uma vítima de uma tragédia que tenha causado forte comoção nacional.
Essa tendência da exploração do drama alheio não é novidade, mas chamou ainda mais a atenção na última exibição do programa Fantástico do ano de 2013. O programa já começou com as imagens fortes da fratura da perna do lutador Anderson Silva, drama que foi exaustivamente explorado no programa. Neste caso específico, ainda é possível perdoar um pouco o programa, pois este era um dos assuntos mais comentados do dia. Mas, em seguida, vieram as outras reportagens e o perdão terminou ali.
O programa mostrou uma reportagem com o cantor San Alves, que havia vencido o programa The Voice Brasil três dias antes. O programa mostrou a repercussão de sua vitória no estado natal, mostrou seus novos fãs, etc. Mas faltava o momento dramático. Então, o programa revelou que o cantor fora abandonado pela mãe biológica nos primeiros dias de vida e explorou este tema durante boa parte da reportagem. O fato pessoal não tinha relação com o programa, mas era preciso fazer o país se comover com mais este drama.
Em seguida, uma reportagem que tinha tudo para ser alegre. Uma entrevista com uma das jogadoras da seleção brasileira de handebol, que havia sido campeã mundial na semana anterior. A reportagem poderia mostrar a trajetória da equipe, as vitórias, a festa do título, mas era preciso mostrar o drama. Então, o que dominou a reportagem foi a revelação de que a referida jogadora, poucos anos antes, havia sofrido um AVC. Era para ser uma entrevista sobre o título, mas era preciso comover o país com mais este drama.
A próxima reportagem era a exploração do drama propriamente dito. O programa lembrava que, nos próximos meses, o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, iria completar um ano. Entrevistas com familiares das vítimas se seguiam e a exploração da dor alheia a torto e a direito.
Para completar a noite, duas entrevistas. A primeira, com um fotógrafo brasileiro para contar sua experiência em um país devastado por uma guerra civil. O objetivo: mostrar o que ele sentiu ao ver mortes de inocentes, conflitos com a polícia, etc. E a outra entrevista, com um casal que perdeu os filhos na tragédia das enchentes na baixada fluminense, há alguns anos, e que agora se tornava pai de trigêmeos. Para não dizer que o programa foi só tragédia, no final teve ainda o momento mais light com o quadro de humor de Marcelo Adnet e os peladeiros do Bola Cheia e Bola Murcha.
Como se percebeu, o último Fantástico do ano foi repleto de "emoções" ou, como cabe melhor dizer, "exploração do drama alheio" ou "exploração midiática de tragédias". Esta edição do programa foi tomada como exemplo do que a TV aberta se tornou. Emocionar o público com histórias "comoventes" foi a grande sacada da produção do programa. É fácil perceber que esta fórmula se repete em vários outros programas e que drama é o tema recorrente. Nada educativo, nada construtivo, nada divertido. Infelizmente, as TVs perceberam que o povo gosta disso. Elas, sabiamente, apenas exploram o que vai lhes trazer audiência. Que venha a próxima tragédia!
Quem tem pelo menos trinta anos deve lembrar de alguns tipos de programas que existiam há anos atrás e que agora desapareceram ou são raros atualmente. Programas de perguntas e respostas, gincanas, show de calouros, paradas de sucesso musical, programas infantis, programas de entrevista, documentários, dentre outros, sumiram e os que sobraram, hoje, são contados a dedo. Em sentido contrário, proliferaram os programas cujo tema principal é contar uma história dramática de algum anônimo ou famoso da última semana. O objetivo é claro: prender a atenção dos telespectadores através da exploração de um momento de dificuldade ou dor do envolvido. Aí proliferam programas inteiros ou alguns quadros de programas como aqueles em que o "bondoso" apresentador reforma a casa ou o carro velho do cidadão, como aquele quadro que explora a saudade da terra natal um de retirante nordestino em São Paulo ou aqueles programas que buscam ser os primeiros a entrevistar a família de uma vítima de uma tragédia que tenha causado forte comoção nacional.
Essa tendência da exploração do drama alheio não é novidade, mas chamou ainda mais a atenção na última exibição do programa Fantástico do ano de 2013. O programa já começou com as imagens fortes da fratura da perna do lutador Anderson Silva, drama que foi exaustivamente explorado no programa. Neste caso específico, ainda é possível perdoar um pouco o programa, pois este era um dos assuntos mais comentados do dia. Mas, em seguida, vieram as outras reportagens e o perdão terminou ali.
O programa mostrou uma reportagem com o cantor San Alves, que havia vencido o programa The Voice Brasil três dias antes. O programa mostrou a repercussão de sua vitória no estado natal, mostrou seus novos fãs, etc. Mas faltava o momento dramático. Então, o programa revelou que o cantor fora abandonado pela mãe biológica nos primeiros dias de vida e explorou este tema durante boa parte da reportagem. O fato pessoal não tinha relação com o programa, mas era preciso fazer o país se comover com mais este drama.
Em seguida, uma reportagem que tinha tudo para ser alegre. Uma entrevista com uma das jogadoras da seleção brasileira de handebol, que havia sido campeã mundial na semana anterior. A reportagem poderia mostrar a trajetória da equipe, as vitórias, a festa do título, mas era preciso mostrar o drama. Então, o que dominou a reportagem foi a revelação de que a referida jogadora, poucos anos antes, havia sofrido um AVC. Era para ser uma entrevista sobre o título, mas era preciso comover o país com mais este drama.
A próxima reportagem era a exploração do drama propriamente dito. O programa lembrava que, nos próximos meses, o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, iria completar um ano. Entrevistas com familiares das vítimas se seguiam e a exploração da dor alheia a torto e a direito.
Para completar a noite, duas entrevistas. A primeira, com um fotógrafo brasileiro para contar sua experiência em um país devastado por uma guerra civil. O objetivo: mostrar o que ele sentiu ao ver mortes de inocentes, conflitos com a polícia, etc. E a outra entrevista, com um casal que perdeu os filhos na tragédia das enchentes na baixada fluminense, há alguns anos, e que agora se tornava pai de trigêmeos. Para não dizer que o programa foi só tragédia, no final teve ainda o momento mais light com o quadro de humor de Marcelo Adnet e os peladeiros do Bola Cheia e Bola Murcha.
Como se percebeu, o último Fantástico do ano foi repleto de "emoções" ou, como cabe melhor dizer, "exploração do drama alheio" ou "exploração midiática de tragédias". Esta edição do programa foi tomada como exemplo do que a TV aberta se tornou. Emocionar o público com histórias "comoventes" foi a grande sacada da produção do programa. É fácil perceber que esta fórmula se repete em vários outros programas e que drama é o tema recorrente. Nada educativo, nada construtivo, nada divertido. Infelizmente, as TVs perceberam que o povo gosta disso. Elas, sabiamente, apenas exploram o que vai lhes trazer audiência. Que venha a próxima tragédia!
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Não foi virada de mesa
Futebol é um campo fértil para discussões exaltadas, debates acirrados e provocações engraçadas. Dizem até que o melhor do futebol é justamente a discussão no dia seguinte: "foi gol ou não foi?", "era para ter sido expulso?", "foi justo o placar?", "meu time é melhor que é seu", etc. Se por um lado, é ótimo para discutir, por outro é assunto mais ingrato de todos para quem deseja discutir com imparcialidade. Todos que torcem para um time sempre estão (ou são os) "certos" e o rivais sempre estão (ou são os) "errados". Isso fica muito evidente quando observo as reações dos torcedores no caso do "Tapetão Lusa-Flu".
Quem me conhece sabe muito bem o quanto sou averso aos times que detêm o poder financeiro e de mídia. Torço contra mesmo (leia-se: em competições nacionais) e fico muito satisfeito quando vejo os times menos favorecidos vencerem os ditos "grandes do futebol brasileiro" ou mesmo quando vejo estes caindo para a segunda divisão. Não é surpresa para ninguém que torci contra a dupla Vasco e Fluminense na rodada final do Campeonato Brasileiro e fiquei muito satisfeito com o rebaixamento dos dois. No entanto, tenho o "defeito" de ser muito mais razão que emoção e essa racionalidade me impede de achar que meu interesse esteja acima do que é certo. E o que é certo? O certo é relativo, mas, até que provem o contrário, o certo é o que está escrito na Lei.
Você que está revoltado, indignado e chateado pelo Fluminense ter escapado do rebaixamento, você que diz que foi injusto ou diz que é um absurdo, por favor, responda as seguintes perguntas:
1) O jogador Heverton estava suspenso?
2) Um jogador suspenso tem que cumprir suspensão?
3) A Portuguesa utilizou um jogador suspenso na última rodada?
Se você respondeu SIM para todas as perguntas, então o que diz o Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD)? Diz que o clube deve perder QUATRO pontos. Então, você vão discutir mais o que? A lei tem que ser cumprida, não importa quem será o beneficiado.
A Portuguesa foi vítima de sua própria desorganização. Acreditou nas palavras de seu advogado, mas não leu a ata do julgamento. Eu acredito que o clube até agiu de boa fé e não sabia que o jogador tinha mais uma partida de suspensão a cumprir. Acredito mesmo, mas... lei é lei. Nas suas letras "frias" não há espaço para subjetivismo, principalmente quando a não aplicação da lei (punição) implicaria em prejuízo para um terceiro. Já pensou que se o STJD decidisse "passar a mão na cabeça" da Portuguesa e não puni-la, causaria prejuízo para o Fluminense? Então, não havia outra alternativa que não a aplicação da lei. Desculpa aí!
Como foi dito no começo do texto, a parcialidade dos torcedores os impedem de pensar racionalmente. A grande maioria dos torcedores diz que o Flu é o vilão. Sim, o passado do Fluminense o condena, mas o passado não está em jogo neste julgamento. Há quem argumente dizendo que a Lei só é cumprida para os times pequenos. Não discordo, mas minha convicção é que um erro não justifica outro. Há também quem questione: será que se o Fluminense tivesse escalado jogador irregular e fosse a Portuguesa que dependesse da punição ao Flu para escapar do rebaixamento, o STJD iria fazer o mesmo? Ora, não vou ficar aqui supondo o que ele IRIA FAZER, mas vou dizer o que ele TEM QUE FAZER agora, neste caso. Se a Lei historicamente beneficiou os poderosos, a única forma de consertar o erro é aplicá-la igualmente, daqui para frente, tanto para os fortes quanto para os fracos.
Surpreende-me ver tanta gente defendendo que um tribunal não aplique a Lei, simplesmente porque o que é correto vai de encontro ao seu interesse (rebaixar um time rival). É estranho ver tanta gente pensando assim, justamente num momento em que o país debate tanto o combate à impunidade. Fala-se tanto em punir quem descumpre a Lei, mas defende-se que ela seja rasgada só para não beneficiar alguém com quem você não simpatiza. É verdade amigos: nem sempre o que é certo vai nos dar prazer. As vezes, o que é certo vai nos contrariar. Mas, o que é certo é o certo.
Quem me conhece sabe muito bem o quanto sou averso aos times que detêm o poder financeiro e de mídia. Torço contra mesmo (leia-se: em competições nacionais) e fico muito satisfeito quando vejo os times menos favorecidos vencerem os ditos "grandes do futebol brasileiro" ou mesmo quando vejo estes caindo para a segunda divisão. Não é surpresa para ninguém que torci contra a dupla Vasco e Fluminense na rodada final do Campeonato Brasileiro e fiquei muito satisfeito com o rebaixamento dos dois. No entanto, tenho o "defeito" de ser muito mais razão que emoção e essa racionalidade me impede de achar que meu interesse esteja acima do que é certo. E o que é certo? O certo é relativo, mas, até que provem o contrário, o certo é o que está escrito na Lei.
Você que está revoltado, indignado e chateado pelo Fluminense ter escapado do rebaixamento, você que diz que foi injusto ou diz que é um absurdo, por favor, responda as seguintes perguntas:
1) O jogador Heverton estava suspenso?
2) Um jogador suspenso tem que cumprir suspensão?
3) A Portuguesa utilizou um jogador suspenso na última rodada?
Se você respondeu SIM para todas as perguntas, então o que diz o Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD)? Diz que o clube deve perder QUATRO pontos. Então, você vão discutir mais o que? A lei tem que ser cumprida, não importa quem será o beneficiado.
A Portuguesa foi vítima de sua própria desorganização. Acreditou nas palavras de seu advogado, mas não leu a ata do julgamento. Eu acredito que o clube até agiu de boa fé e não sabia que o jogador tinha mais uma partida de suspensão a cumprir. Acredito mesmo, mas... lei é lei. Nas suas letras "frias" não há espaço para subjetivismo, principalmente quando a não aplicação da lei (punição) implicaria em prejuízo para um terceiro. Já pensou que se o STJD decidisse "passar a mão na cabeça" da Portuguesa e não puni-la, causaria prejuízo para o Fluminense? Então, não havia outra alternativa que não a aplicação da lei. Desculpa aí!
Como foi dito no começo do texto, a parcialidade dos torcedores os impedem de pensar racionalmente. A grande maioria dos torcedores diz que o Flu é o vilão. Sim, o passado do Fluminense o condena, mas o passado não está em jogo neste julgamento. Há quem argumente dizendo que a Lei só é cumprida para os times pequenos. Não discordo, mas minha convicção é que um erro não justifica outro. Há também quem questione: será que se o Fluminense tivesse escalado jogador irregular e fosse a Portuguesa que dependesse da punição ao Flu para escapar do rebaixamento, o STJD iria fazer o mesmo? Ora, não vou ficar aqui supondo o que ele IRIA FAZER, mas vou dizer o que ele TEM QUE FAZER agora, neste caso. Se a Lei historicamente beneficiou os poderosos, a única forma de consertar o erro é aplicá-la igualmente, daqui para frente, tanto para os fortes quanto para os fracos.
Surpreende-me ver tanta gente defendendo que um tribunal não aplique a Lei, simplesmente porque o que é correto vai de encontro ao seu interesse (rebaixar um time rival). É estranho ver tanta gente pensando assim, justamente num momento em que o país debate tanto o combate à impunidade. Fala-se tanto em punir quem descumpre a Lei, mas defende-se que ela seja rasgada só para não beneficiar alguém com quem você não simpatiza. É verdade amigos: nem sempre o que é certo vai nos dar prazer. As vezes, o que é certo vai nos contrariar. Mas, o que é certo é o certo.
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sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Desocupe-se! Despreocupe-se! Aprendendo a viver melhor.
Um grupo de amigos homens faz uma confraternização e reúne suas famílias (esposas e filhos). Algumas esposas, com pouca intimidade, começam a conversar:
- O seu marido participa do futebol nas terças-feiras?
- Sim. Menina, nem te conto! Isso me preocupa tanto. Ele sai de casa às 8 da noite e volta somente a meia-noite, suado e cheirando a cerveja.
- O meu também.
- O que mais me preocupa é que isso acontece em um dia de semana. Ele vai dormir tarde, mesmo tendo que acordar as 6 da manhã, no dia seguinte, para trabalhar.
- Meu marido também. Não sei como ele aguenta sair de casa no dia seguinte. O pior é que ele acorda cansado, mas, quando falta a este futebol, passa o dia todo irritado.
Esse papo de esposas foi verídico. Ele conta um pouco da história de um grupo de amigos, amantes do futebol e apreciadores de uma "geladinha". Os encontros ocorrem semanalmente, em média com uma hora de futebol e duas horas de cerveja. Mas o que motiva pais de família, cada um com suas responsabilidades, a abdicarem de boas horas de sono, no começo de cada semana, em troca de alguns horas de futebol, cerveja e cansaço no dia seguinte? É simples: o bem-estar proporcionado pelo encontro com os amigos.
Apesar do cansaço físico, esses nobres peladeiros, na verdade, estão descansando. Isso mesmo! Descansando a mente. O segredo está aí. Todos nós temos nossas preocupações, nossos dilemas, nossos problemas. Tudo isso consome parte de nossas horas diárias, nos cansa e nos sufoca. Uma das receitas para viver bem é justamente "desocupar" nosso cérebro de tudo isso por alguns momentos. Momentos, esses, que devem ser preenchidos com atividades prazerosas e sem qualquer ligação com aquilo que nos preocupa. É como se estes momentos "massageassem" nossa mente e desintoxicassem nosso corpo das angústias diárias. Sem momentos assim, as pessoas tendem a ficar pensando o tempo todo em seus problemas, em constante estado de alerta e estresse. Isso é extremamente ruim.
Essa turma de amigos se desliga dos problemas com futebol e cerveja. As esposas talvez nunca entendam completamente (apesar de aceitarem), mas alguns estudos, inclusive, afirmam que essa prática de juntar amigos para jogar conversa fora numa mesa de bar é bastante saudável, pois proporciona bem-estar e fortalece as amizades, como pode ser lido neste artigo (Beber com os amigos duas vezes por semana pode ser benéfico).
Apesar do exemplo mencionado, o ensinamento que fica, não necessariamente passa por futebol ou cerveja, mas sim por ocupar-nos, com certa frequência, com alguma atividade diversa daquelas que nos ocupam e trazem preocupações constantes. É isso que esta turma faz, de verdade. Se o cansaço desses amigos no dia seguinte é físico, pode ter certeza que suas mentes estão descansadas, tranquilas, mais calmas e felizes. Pode se dizer até que mais bem preparadas para vencer os desafios do que se passassem todo o tempo preocupadas com eles.
Então, nada de ficar o tempo todo pensando nos problemas do trabalho, pensando nos problemas de famílias ou do condomínio, nas finanças ou mesmo se preocupando com algo ruim que possa estar para acontecer. Afinal, a própria palavra preocupação já denota que você está apenas se pré-ocupando, ou seja, ficando ocupado antes da hora. Reserve momentos para fazer algo que lhe dê prazer, algo que exercite sua imaginação e seu corpo. Principalmente, atividades que envolvam interação com outras pessoas. Socializar-se faz bem. Pense, sim, nos seus problemas, planeje como resolvê-los e enfrente-os com determinação, mas se lembre que se desocupar por certos momentos é fundamental. Lembre-se que esquecê-los por alguns instantes vai ajudar a enfrentá-los com menos sofrimento e, quem sabe, até com mais prazer. Essa turma do futebol sabe disso. Ótimo para eles! Pode ser para você também.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Biografias: entre a livre expressão e o direito à privacidade
"Posso não concordar com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las". Foi François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire, quem pronunciou esta frase no século XVIII. Onde quer que hoje esteja, Voltaire deve se remoer todo ao assistir de camarote à polêmica atual em torno das biografias não autorizadas.
Voltaire defendia a liberdade de expressão, algo que em nossa sociedade atual, felizmente, é considerado senso comum. A Constituição Federal atual garante a liberdade de expressão, mas o Código Civil, em nome da defesa à vida privada, prevê que a publicação de biografias dependa de prévia autorização do biografado ou de sua família (quando não vivo). A polêmica surgiu quando esta previsão começou a ser questionada. Hoje, a questão é discutida no Congresso Nacional, através de um projeto para mudar o Código Civil, e também no STF, onde a constitucionalidade dos artigos do Código Civil, referentes ao assunto, é questionada. Contrário às mudanças está o movimento Procure Saber, encampado por alguns artistas de renome, que defendem o direito à privacidade.
É perfeitamente compreensível o posicionamento dos artistas. Afinal, quem gostaria de ver publicados fatos verídicos do seu passado dos quais se envergonha? Quase todo mundo tem algo no seu passado que não gosta de ser discutido ou mesmo revelado. Ocorre com pessoas anônimas, quanto mais com pessoas conhecidas. E quando os fatos narrados não são verídicos ou mesmo não comprovados (boatos, fofocas,...)? Neste caso, as consequências para as pessoas publicamente expostas são duradoras, mesmo que a verdade venha a ser somente mais tarde conhecida. Enfim, eu vos entendo, caros artistas, mas não concordo com vocês!
Comparemos uma biografia, a matérias de jornais, revistas ou blogs. Quando matérias como estas são escritas, elas dizem, basicamente, que ALGUÉM acabou de FAZER ISSO ou que acabou de DIZER AQUILO. Em suma, uma matéria de jornal, revista ou blog conta fatos sobre alguém que estão acontecendo (presente). Uma biografia, pobremente falando, nada mais é do que a narração de fatos que ocorreram (passado). Em outras palavras, é como se os jornais, revistas e blogs escrevessem partes de uma biografia diariamente, em tempo quase real. A diferença básica entre elas é apenas temporal. Se é permitido reportar a vida de alguém em tempo real, por que seria proibido reportar um resgate do passado deste mesmo alguém?
A liberdade de expressão é importante, mas, certamente, deve ter limites. O direito de expôr pensamentos, ideias e opiniões ou, simplesmente, de relatar informações deve ser garantido, porém a responsabilidade pelo que é exposto deve ser um dever que acompanhe sempre esse direito. A verdade deve ser o primeiro compromisso de quem quer ser "livre para expôr" o que pensa, da mesma forma que as consequências por calúnias, difamações e injúrias proferidas. Assim, os biografados devem ter o direito de não reconhecer as biografias, mas não de proibi-las simplesmente por não concordar com elas. É admissível que os fatos nelas relatados sejam questionados judicialmente e, até mesmo, que a obra seja, posteriormente, devido a isso, proibida. É admissível que o autor seja processado quando falte com a verdade ou insinue situações que firam a honra do biografado. Mas é inadmissível a publicação seja previamente censurada.
Os debates sobre as biografias têm se concentrado, sobremaneira, na questão da privacidade, pois tem se pensado muito em biografias apenas de artistas (cantores, atores, atletas, ..), mas não devemos nos esquecer das biografias de outras personalidades de relevância histórica. Lembremos que a vida de políticos, pensadores, revolucionários e outros ícones históricos também são alvos de biografias. Não é razoável pensar que biografias do ex-presidente Lula, ou do ex-presidente Collor, ou do poeta Ariano Suassuna ou de Chico Mendes só possam ser feitas com o consentimento dos mesmos ou de suas famílias. Uma biografia que só traga fatos autorizados pelo personagem não é uma biografia, é apenas um relato positivo para exaltá-lo. O interesse histórico é suficientemente relevante para justificar a obra, mesmo a contragosto do personagem em questão. Claro, sempre pautada na verdade.
A grande questão em jogo é saber qual o limite da liberdade. Até que ponto a verdade pode ferir a honra ou ser considerada difamação? Como provar que os fatos narrados podem ser inverdades? Como comprovar a boa-fé do autor? Como separar a liberdade de expressão da invasão de privacidade. Esses são os pontos mais complexos que necessitam de maior discussão e aprimoramentos, não a proibição de biografias não autorizadas. Estas, pelo menos para mim, não deveriam ser pura e simplesmente pré-censuradas.
Voltaire defendia a liberdade de expressão, algo que em nossa sociedade atual, felizmente, é considerado senso comum. A Constituição Federal atual garante a liberdade de expressão, mas o Código Civil, em nome da defesa à vida privada, prevê que a publicação de biografias dependa de prévia autorização do biografado ou de sua família (quando não vivo). A polêmica surgiu quando esta previsão começou a ser questionada. Hoje, a questão é discutida no Congresso Nacional, através de um projeto para mudar o Código Civil, e também no STF, onde a constitucionalidade dos artigos do Código Civil, referentes ao assunto, é questionada. Contrário às mudanças está o movimento Procure Saber, encampado por alguns artistas de renome, que defendem o direito à privacidade.
É perfeitamente compreensível o posicionamento dos artistas. Afinal, quem gostaria de ver publicados fatos verídicos do seu passado dos quais se envergonha? Quase todo mundo tem algo no seu passado que não gosta de ser discutido ou mesmo revelado. Ocorre com pessoas anônimas, quanto mais com pessoas conhecidas. E quando os fatos narrados não são verídicos ou mesmo não comprovados (boatos, fofocas,...)? Neste caso, as consequências para as pessoas publicamente expostas são duradoras, mesmo que a verdade venha a ser somente mais tarde conhecida. Enfim, eu vos entendo, caros artistas, mas não concordo com vocês!
Comparemos uma biografia, a matérias de jornais, revistas ou blogs. Quando matérias como estas são escritas, elas dizem, basicamente, que ALGUÉM acabou de FAZER ISSO ou que acabou de DIZER AQUILO. Em suma, uma matéria de jornal, revista ou blog conta fatos sobre alguém que estão acontecendo (presente). Uma biografia, pobremente falando, nada mais é do que a narração de fatos que ocorreram (passado). Em outras palavras, é como se os jornais, revistas e blogs escrevessem partes de uma biografia diariamente, em tempo quase real. A diferença básica entre elas é apenas temporal. Se é permitido reportar a vida de alguém em tempo real, por que seria proibido reportar um resgate do passado deste mesmo alguém?
A liberdade de expressão é importante, mas, certamente, deve ter limites. O direito de expôr pensamentos, ideias e opiniões ou, simplesmente, de relatar informações deve ser garantido, porém a responsabilidade pelo que é exposto deve ser um dever que acompanhe sempre esse direito. A verdade deve ser o primeiro compromisso de quem quer ser "livre para expôr" o que pensa, da mesma forma que as consequências por calúnias, difamações e injúrias proferidas. Assim, os biografados devem ter o direito de não reconhecer as biografias, mas não de proibi-las simplesmente por não concordar com elas. É admissível que os fatos nelas relatados sejam questionados judicialmente e, até mesmo, que a obra seja, posteriormente, devido a isso, proibida. É admissível que o autor seja processado quando falte com a verdade ou insinue situações que firam a honra do biografado. Mas é inadmissível a publicação seja previamente censurada.
Os debates sobre as biografias têm se concentrado, sobremaneira, na questão da privacidade, pois tem se pensado muito em biografias apenas de artistas (cantores, atores, atletas, ..), mas não devemos nos esquecer das biografias de outras personalidades de relevância histórica. Lembremos que a vida de políticos, pensadores, revolucionários e outros ícones históricos também são alvos de biografias. Não é razoável pensar que biografias do ex-presidente Lula, ou do ex-presidente Collor, ou do poeta Ariano Suassuna ou de Chico Mendes só possam ser feitas com o consentimento dos mesmos ou de suas famílias. Uma biografia que só traga fatos autorizados pelo personagem não é uma biografia, é apenas um relato positivo para exaltá-lo. O interesse histórico é suficientemente relevante para justificar a obra, mesmo a contragosto do personagem em questão. Claro, sempre pautada na verdade.
A grande questão em jogo é saber qual o limite da liberdade. Até que ponto a verdade pode ferir a honra ou ser considerada difamação? Como provar que os fatos narrados podem ser inverdades? Como comprovar a boa-fé do autor? Como separar a liberdade de expressão da invasão de privacidade. Esses são os pontos mais complexos que necessitam de maior discussão e aprimoramentos, não a proibição de biografias não autorizadas. Estas, pelo menos para mim, não deveriam ser pura e simplesmente pré-censuradas.
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sábado, 19 de outubro de 2013
Toda atitude muda o mundo
João da Silva está no enterro de seu filho Joãozinho, que morreu aos quinze anos de idade. João da Silva hoje chora, olha para o céu e se pergunta: "Por que?" Essa história começou há pouco mais de cinco anos. Foi assim.
João da Silva era uma grande fazendeiro, que precisava de muita água para saciar a sede do seu gado e irrigar suas plantações. João da Silva, corrompeu Sebastião, Juarez e Jacó. Os três participaram de uma esquema que desviou água da rede de abastecimento diretamente para a fazenda de João da Silva. O roubo de água, nunca descoberto, comprometeu o abastecimento da cidade de Caipiri. Seu Antônio, morador de Caipiri, sofria com a falta de água. Por muitas vezes deixava de trabalhar porque precisava andar cinco quilômetros para buscar alguns baldes de água na cacimba do Dr. Malaquias. Acabou perdendo o emprego. Como não tinha como ir buscar água sozinho, Seu Antônio fazia as viagens para buscar água com seu filho Pedro, que, por isso, deixava de ir à escola.
De tanto levar falta, Pedro foi reprovado diversas vezes até abandonar de vez a escola. Além de sede, Pedro tinha fome, e acabou se juntando à turma de Inácio para praticar assaltos na cidade. A turma de Inácio era formada por vários bandidos, todos jovens que buscavam na criminalidade uma fonte de recursos para minimizar sua miséria. A turma de Inácio só crescia. Até que, um dia, a turma de Inácio tentou assaltar a Padaria do Portuga. Mas Portuga estava preparado e trocou tiros com os bandidos que fugiram em debandada. Na troca de tiros, uma bala perdida acertou um jovem do outro lado da rua: era Joãozinho, filho de João da Silva.
No começo do texto, no enterro do seu filho, João da Silva se perguntava porque aquilo tinha acontecido logo com seu filho. Ele não percebeu, mas talvez Joãozinho não tivesse sido baleado se o assalto à Padaria do Portuga não tivesse acontecido. O assalto talvez não tivesse acontecido se a turma de Inácio não tivesse sido formada. A turma de Inácio não teria sido formada se Pedro e outros jovens que a formaram estivessem na escola. Pedro e outros jovens estariam na escola se não estivessem passando fome e sede. Pedro poderia não estar passando fome se seu pai, Antônio, pudesse estar trabalhando, ao invés de levar seu filho para buscar água. Antônio poderia estar trabalhando se Caipiri tivesse água. Água, esta, que estava sendo desviada para a fazenda de João da Silva, que, agora, perguntava porque seu filho não estava mais vivo.
Esta história mostra que tudo aquilo que fazemos tem reflexo em tudo que está a nossa volta. Ações, comportamentos e atitudes, por menores que sejam, boas ou más, mudam o mundo. Você está no mundo, então você é capaz de influenciá-lo, positiva ou negativamente. Além do mais, tudo que se planta, colhe-se. Tudo que damos ao mundo, recebemos de volta, como aconteceu com João da Silva. Pense nisso antes de buscar satisfazer suas necessidades a custo do sofrimento dos outros. Pense nisto, antes de tratar mal alguém necessitado. Pense nisto, antes de furar uma fila de espera. Pense nisto no seu trabalho, no trânsito, no ônibus, na sua vizinhança.
Não julgue as pessoas. Antes disso, saiba que só as próprias pessoas sabem os dramas pessoais por quais elas passam e que justificam sua forma de ser e agir. Seu julgamento pode gerar consequências desastrosas, mas seu auxílio e seu apoio podem salvar almas. Rodei-se de pessoas queridas e afaste-se de pessoas ruins. Não cultive a vingança, não crie inimigos, perdoe sempre que possível e tenha pensamentos positivos. Seja generoso, seja justo, seja honesto e seja correto. Procure fazer o bem, não ser egoísta e respeitar a todos, que, assim, serás recompensado. Tire da cabeça a falsa ideia de que, neste mundo cão, não adianta ser "apenas um" correto ou bonzinho no meio de tanta gente desonesta ou ruim. Esse um faz diferença sim. Talvez uma diferença invisível, mas, certamente, maior do que possamos imaginar. Esse um pode virar dois, três, depois quatro... Então, façamos com que esta diferença possa ser mais positiva. Que os bons sejam maioria.
João da Silva era uma grande fazendeiro, que precisava de muita água para saciar a sede do seu gado e irrigar suas plantações. João da Silva, corrompeu Sebastião, Juarez e Jacó. Os três participaram de uma esquema que desviou água da rede de abastecimento diretamente para a fazenda de João da Silva. O roubo de água, nunca descoberto, comprometeu o abastecimento da cidade de Caipiri. Seu Antônio, morador de Caipiri, sofria com a falta de água. Por muitas vezes deixava de trabalhar porque precisava andar cinco quilômetros para buscar alguns baldes de água na cacimba do Dr. Malaquias. Acabou perdendo o emprego. Como não tinha como ir buscar água sozinho, Seu Antônio fazia as viagens para buscar água com seu filho Pedro, que, por isso, deixava de ir à escola.
De tanto levar falta, Pedro foi reprovado diversas vezes até abandonar de vez a escola. Além de sede, Pedro tinha fome, e acabou se juntando à turma de Inácio para praticar assaltos na cidade. A turma de Inácio era formada por vários bandidos, todos jovens que buscavam na criminalidade uma fonte de recursos para minimizar sua miséria. A turma de Inácio só crescia. Até que, um dia, a turma de Inácio tentou assaltar a Padaria do Portuga. Mas Portuga estava preparado e trocou tiros com os bandidos que fugiram em debandada. Na troca de tiros, uma bala perdida acertou um jovem do outro lado da rua: era Joãozinho, filho de João da Silva.
No começo do texto, no enterro do seu filho, João da Silva se perguntava porque aquilo tinha acontecido logo com seu filho. Ele não percebeu, mas talvez Joãozinho não tivesse sido baleado se o assalto à Padaria do Portuga não tivesse acontecido. O assalto talvez não tivesse acontecido se a turma de Inácio não tivesse sido formada. A turma de Inácio não teria sido formada se Pedro e outros jovens que a formaram estivessem na escola. Pedro e outros jovens estariam na escola se não estivessem passando fome e sede. Pedro poderia não estar passando fome se seu pai, Antônio, pudesse estar trabalhando, ao invés de levar seu filho para buscar água. Antônio poderia estar trabalhando se Caipiri tivesse água. Água, esta, que estava sendo desviada para a fazenda de João da Silva, que, agora, perguntava porque seu filho não estava mais vivo.
Esta história mostra que tudo aquilo que fazemos tem reflexo em tudo que está a nossa volta. Ações, comportamentos e atitudes, por menores que sejam, boas ou más, mudam o mundo. Você está no mundo, então você é capaz de influenciá-lo, positiva ou negativamente. Além do mais, tudo que se planta, colhe-se. Tudo que damos ao mundo, recebemos de volta, como aconteceu com João da Silva. Pense nisso antes de buscar satisfazer suas necessidades a custo do sofrimento dos outros. Pense nisto, antes de tratar mal alguém necessitado. Pense nisto, antes de furar uma fila de espera. Pense nisto no seu trabalho, no trânsito, no ônibus, na sua vizinhança.
Não julgue as pessoas. Antes disso, saiba que só as próprias pessoas sabem os dramas pessoais por quais elas passam e que justificam sua forma de ser e agir. Seu julgamento pode gerar consequências desastrosas, mas seu auxílio e seu apoio podem salvar almas. Rodei-se de pessoas queridas e afaste-se de pessoas ruins. Não cultive a vingança, não crie inimigos, perdoe sempre que possível e tenha pensamentos positivos. Seja generoso, seja justo, seja honesto e seja correto. Procure fazer o bem, não ser egoísta e respeitar a todos, que, assim, serás recompensado. Tire da cabeça a falsa ideia de que, neste mundo cão, não adianta ser "apenas um" correto ou bonzinho no meio de tanta gente desonesta ou ruim. Esse um faz diferença sim. Talvez uma diferença invisível, mas, certamente, maior do que possamos imaginar. Esse um pode virar dois, três, depois quatro... Então, façamos com que esta diferença possa ser mais positiva. Que os bons sejam maioria.
sábado, 28 de setembro de 2013
As armas de lá; as armas de cá
Do lado de lá, bem longe, na Síria, uma guerra civil estourou. E entre aliados do governo e rebeldes, armas químicas foram usadas. Quem usou as armas? Não se sabe. Os EUA acusam o regime de Bashar al-Assad. A Rússia diz que foi a oposição. No meio das acusações, o governo da Síria nega ter usado tais armas, mas não nega possuí-las.
Para a guerra civil síria, poucos se importaram. Ninguém se preocupou com os mortos pela guerra. Ninguém se preocupou se a guerra é justa, se o governo é tirano ou se os rebeldes têm razão. Problema dos sírios. A preocupação são suas armas. As armas de lá matam muitos sírios, mas estadunidenses, franceses, alemães, russos e outros poderosos não estão preocupados com os sírios. A preocupação deles é não ser a próxima vítima. Fala-se em intervenção militar. Fala-se em acordo para destruição das armas. Enfim, fala-se de e preocupa-se com Síria. A comunidade internacional quer agir, de alguma forma, para evitar o uso das armas podem causar destruição em massa. Destruição, claro, de suas massas.
Enquanto isso, do lado de cá, no nosso Brasil, também temos as nossas "armas de destruição em massa". Não são químicas, mas matam multidões a cada ano. Bandidos armados "até os dentes" com armas de uso exclusivo das Forças Armadas, ou seja, armas de guerra, dominam comunidades inteiras nas periferias de algumas de nossas maiores cidades. Com o poder das armas, destroem a paz e a tranquilidade das comunidades. Com o poder das armas, sustentam o tráfico de drogas e ganham muito dinheiro. Com o poder das armas, destroem o futuro dos jovens. Com o poder das armas matam, matam e matam nossas massas.
Nossas "armas de destruição em massa" não são químicas, mas matam e destroem. As armas de lá chamam a atenção internacional. As armas de cá, não. Enquanto os brasileiros vão morrendo, não tem Barack Obama, Angela Merkel ou Vladimir Putin que se preocupe com nossas armas, mesmo que, por vezes, turistas norte-americanos, alemães ou russos sejam atingidos. Pior que isso. Se não chamam a atenção deles, as armas de cá, ao que parece, não chamam a atenção nem das autoridades locais. Todos sabem o nome dos principais traficantes, sabem as comunidades que dominam, mas nossas autoridades não falam (ou pouco falam) em intervenção.
As armas daqui não chegam à toa na mão dos bandidos. Nossas fronteiras estão abertas para suas entradas e até mesmo a autoridade policial, que deveria estar ao lado dos que são do bem, se associa aos bandidos e contribui para manter seu poder. Enquanto isso, quando se quis, os governantes "pacificaram" as comunidades que interessavam, aquelas que "precisavam". Que coisa bonita, os bandidos em fuga aparecendo na TV! Ficou por isso mesmo. Outras comunidades não tiveram a mesma sorte.
A preocupação internacional, com as armas de lá, é bem diferente da preocupação nacional, com as armas de cá. As armas daqui viraram coisa comum. Não parecem surpreender mais, não parecem preocupar quem tem o poder-dever de manter a ordem. Com elas, só se preocupam suas vítimas indefesas. Que a preocupação internacional com as armas sírias sirvam de exemplo para acordar a preocupação nacional com armas daqui. Um sonho distante. Bem distante. Apenas um sonho.
Para a guerra civil síria, poucos se importaram. Ninguém se preocupou com os mortos pela guerra. Ninguém se preocupou se a guerra é justa, se o governo é tirano ou se os rebeldes têm razão. Problema dos sírios. A preocupação são suas armas. As armas de lá matam muitos sírios, mas estadunidenses, franceses, alemães, russos e outros poderosos não estão preocupados com os sírios. A preocupação deles é não ser a próxima vítima. Fala-se em intervenção militar. Fala-se em acordo para destruição das armas. Enfim, fala-se de e preocupa-se com Síria. A comunidade internacional quer agir, de alguma forma, para evitar o uso das armas podem causar destruição em massa. Destruição, claro, de suas massas.
Enquanto isso, do lado de cá, no nosso Brasil, também temos as nossas "armas de destruição em massa". Não são químicas, mas matam multidões a cada ano. Bandidos armados "até os dentes" com armas de uso exclusivo das Forças Armadas, ou seja, armas de guerra, dominam comunidades inteiras nas periferias de algumas de nossas maiores cidades. Com o poder das armas, destroem a paz e a tranquilidade das comunidades. Com o poder das armas, sustentam o tráfico de drogas e ganham muito dinheiro. Com o poder das armas, destroem o futuro dos jovens. Com o poder das armas matam, matam e matam nossas massas.
Nossas "armas de destruição em massa" não são químicas, mas matam e destroem. As armas de lá chamam a atenção internacional. As armas de cá, não. Enquanto os brasileiros vão morrendo, não tem Barack Obama, Angela Merkel ou Vladimir Putin que se preocupe com nossas armas, mesmo que, por vezes, turistas norte-americanos, alemães ou russos sejam atingidos. Pior que isso. Se não chamam a atenção deles, as armas de cá, ao que parece, não chamam a atenção nem das autoridades locais. Todos sabem o nome dos principais traficantes, sabem as comunidades que dominam, mas nossas autoridades não falam (ou pouco falam) em intervenção.
As armas daqui não chegam à toa na mão dos bandidos. Nossas fronteiras estão abertas para suas entradas e até mesmo a autoridade policial, que deveria estar ao lado dos que são do bem, se associa aos bandidos e contribui para manter seu poder. Enquanto isso, quando se quis, os governantes "pacificaram" as comunidades que interessavam, aquelas que "precisavam". Que coisa bonita, os bandidos em fuga aparecendo na TV! Ficou por isso mesmo. Outras comunidades não tiveram a mesma sorte.
A preocupação internacional, com as armas de lá, é bem diferente da preocupação nacional, com as armas de cá. As armas daqui viraram coisa comum. Não parecem surpreender mais, não parecem preocupar quem tem o poder-dever de manter a ordem. Com elas, só se preocupam suas vítimas indefesas. Que a preocupação internacional com as armas sírias sirvam de exemplo para acordar a preocupação nacional com armas daqui. Um sonho distante. Bem distante. Apenas um sonho.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
O voto de Celso de Mello: uma aula de Direito e uma triste realidade
Quando soube que o Supremo Tribunal Federal iria julgar a admissibilidade ou não de um recurso dos mensaleiros, chamado Embargo Infringente, procurei saber do que se tratava. Logo de cara, entendi, apesar das controvérsias em torno do assunto, que era um recurso previsto em Lei e que, por isso, seria facilmente aceito. Muito ruim, pois adiaria ainda mais o resultado final dos processos e por mais tempo continuariam soltos os mensaleiros, antes de iniciarem os cumprimentos de suas penas.
Para minha surpresa, no primeiro dia de julgamento, apenas 4x2 pró-embragos. Mais surpreendente ainda foi o segundo dia, que terminou empatado em 5x5, faltando apenas o voto de minerva. Durante uma semana, passei a ter esperanças de que o improvável pudesse acontecer e que os embargos infringentes poderiam ser negados. Apesar de entender que os embargos infringentes fossem legais e de alguns amigos terem me alertado que o Ministro Celso de Mello, há alguns meses, já havia se manifestado a favor do tema, eu quis acreditar que eles poderiam ser negados. Torci muito para isso, mas, ... mas,... não deu!
Agora a opinião pública "caiu de pau". Acusa os juízes de contribuir para a impunidade, de beneficiar os corruptos e até de trabalhar para os interesses dos poderosos. Para muitos, o STF "caiu nos seus conceitos" como instituição e deu um atestado de aprovação à roubalheira. A verdade é que, antes das críticas ferozes direcionadas a quem votou a favor, se a grande maioria das pessoas comuns entendessem um pouquinho mais tecnicamente o que de fato estava sendo julgado, saberia que não foi bem assim. Todos nós torcemos para que os mensaleiros sejam punidos o mais dura e rapidamente possível, mas nossa emoção não pode se sobrepor à razão.
Em primeiro lugar, o julgamento da admissibilidade dos embargos não estava avaliando o mérito dos processos. Em outras palavras, não julgava se Dirceu e seus "companheiros" eram ou não inocentes ou se deviam ou não ir para a cadeia. Julgava, sim, se o recurso por eles requerido era ou não válido, pois havia divergência na Corte. E essa dúvida que surgiu, por acaso, justamente no processo do Mensalão, precisaria ser tirada, pois, a partir de agora, valerá para todo e qualquer julgamento do STF. Em segundo lugar, a questão não era se os "embargos infringentes dos mensaleiros" eram ou não legais, mas sim se "embargo infringente" como recurso, independentemente do processo, deve ou não ser acolhido na última instância do judiciário. Não sou magistrado, nem estudante de Direito, mas, pelo pouco que procurei me informar sobre o tema, acredito ser legal, pois está previsto no Regimento Interno do STF e não há Lei que o tenha revogado. Então, só nos resta lamentar. Além do mais, não é correto afirmar que o resultado da análise dos embargos infringentes transformou o julgamento do Mensalão em uma "grande pizza". Não é verdade, pois ninguém foi absolvido, apenar confirmou o direito de alguns dos mensaleiros terem seus julgamentos revistos, dentro da Lei. É claro que qualquer revisão abre a possibilidade de mudar o resultado, mas os julgadores serão os mesmos que, no primeiro julgamento, condenaram. Então, esperemos que as penas sejam mantidas (Oremos!).
Não surpreende que o STF tenha dirimido a dúvida, decidindo pela validade do recurso. O mais surpreendente nesta decisão foi o placar apertado: 6 a 5. Não entendo como os ministros do Supremo, pessoas estudadas e teoricamente preparadas para julgar com independência, imparcialidade e serenidade, de forma "fria" e "cega" (como a Justiça deve ser), sem levar em consideração desejos pessoais e emoção e com base apenas no que diz a Lei, possam divergir tanto. Aliás, o voto do Ministro Celso, até por ter sido o último, rebateu muitos argumentos dos que votaram antes dele. Seu voto foi uma verdadeira aula de Direito. Doa em quem doer. Muitos dos seus argumentos (para nossa infelicidade) considero tecnicamente perfeitos, entre eles, os seguintes:
Não adianta reclamar do STF, nem do ministro A ou ministro B. O recurso existe, é legal e foi (tecnicamente falando) corretamente aceito. Temos que reclamar e lamentar muito, sim, é do fato de isso estar previsto na legislação judiciária. O direito à ampla defesa e do contraditório é justo. O que está errado é essa quase eterna possibilidade de recursos existir, pois só adia as decisões finais e termina por beneficiar os réus de tal forma que os torna praticamente impunes. Essa Legislação precisa mudar. Ela deve garantir sim o direito de defesa, mas também precisa garantir a razoável duração dos processos para permitir que os mesmos possam chegar ao final e que os criminosos possam começar a ser punidos. No caso específico do Mensalão, chega a ser revoltante ver que o maior escândalo de corrupção da história do país, que se tornou público desde o ano de 2005, ainda não tem seu julgamento concluído e que ninguém ainda foi preso. Mais revoltante ainda é saber que, devido ao acolhimento dos embargos infringentes, o "rejulgamento" poderá adiar tanto a decisão final que muitos dos crimes poderão prescrever e muitos dos "pré-condenados" ficarão impunes. Queremos acreditar que "a Justiça tarda, mas não falha", mas dói saber que, na prática, "ela não é feita porque tanto se retarda".
Para minha surpresa, no primeiro dia de julgamento, apenas 4x2 pró-embragos. Mais surpreendente ainda foi o segundo dia, que terminou empatado em 5x5, faltando apenas o voto de minerva. Durante uma semana, passei a ter esperanças de que o improvável pudesse acontecer e que os embargos infringentes poderiam ser negados. Apesar de entender que os embargos infringentes fossem legais e de alguns amigos terem me alertado que o Ministro Celso de Mello, há alguns meses, já havia se manifestado a favor do tema, eu quis acreditar que eles poderiam ser negados. Torci muito para isso, mas, ... mas,... não deu!
Agora a opinião pública "caiu de pau". Acusa os juízes de contribuir para a impunidade, de beneficiar os corruptos e até de trabalhar para os interesses dos poderosos. Para muitos, o STF "caiu nos seus conceitos" como instituição e deu um atestado de aprovação à roubalheira. A verdade é que, antes das críticas ferozes direcionadas a quem votou a favor, se a grande maioria das pessoas comuns entendessem um pouquinho mais tecnicamente o que de fato estava sendo julgado, saberia que não foi bem assim. Todos nós torcemos para que os mensaleiros sejam punidos o mais dura e rapidamente possível, mas nossa emoção não pode se sobrepor à razão.
Em primeiro lugar, o julgamento da admissibilidade dos embargos não estava avaliando o mérito dos processos. Em outras palavras, não julgava se Dirceu e seus "companheiros" eram ou não inocentes ou se deviam ou não ir para a cadeia. Julgava, sim, se o recurso por eles requerido era ou não válido, pois havia divergência na Corte. E essa dúvida que surgiu, por acaso, justamente no processo do Mensalão, precisaria ser tirada, pois, a partir de agora, valerá para todo e qualquer julgamento do STF. Em segundo lugar, a questão não era se os "embargos infringentes dos mensaleiros" eram ou não legais, mas sim se "embargo infringente" como recurso, independentemente do processo, deve ou não ser acolhido na última instância do judiciário. Não sou magistrado, nem estudante de Direito, mas, pelo pouco que procurei me informar sobre o tema, acredito ser legal, pois está previsto no Regimento Interno do STF e não há Lei que o tenha revogado. Então, só nos resta lamentar. Além do mais, não é correto afirmar que o resultado da análise dos embargos infringentes transformou o julgamento do Mensalão em uma "grande pizza". Não é verdade, pois ninguém foi absolvido, apenar confirmou o direito de alguns dos mensaleiros terem seus julgamentos revistos, dentro da Lei. É claro que qualquer revisão abre a possibilidade de mudar o resultado, mas os julgadores serão os mesmos que, no primeiro julgamento, condenaram. Então, esperemos que as penas sejam mantidas (Oremos!).
Não surpreende que o STF tenha dirimido a dúvida, decidindo pela validade do recurso. O mais surpreendente nesta decisão foi o placar apertado: 6 a 5. Não entendo como os ministros do Supremo, pessoas estudadas e teoricamente preparadas para julgar com independência, imparcialidade e serenidade, de forma "fria" e "cega" (como a Justiça deve ser), sem levar em consideração desejos pessoais e emoção e com base apenas no que diz a Lei, possam divergir tanto. Aliás, o voto do Ministro Celso, até por ter sido o último, rebateu muitos argumentos dos que votaram antes dele. Seu voto foi uma verdadeira aula de Direito. Doa em quem doer. Muitos dos seus argumentos (para nossa infelicidade) considero tecnicamente perfeitos, entre eles, os seguintes:
- [Juízes] não podem deixar contaminar-se por juízos paralelos resultantes de manifestações da opinião pública que objetivem condicionar a manifestação de juízes e tribunais.
- O direito ao duplo grau de jurisdição é indispensável. Não existem ressalvas [quanto a isso] pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.
- Embora todo o poder emane do povo, a representação popular junto ao Poder Judiciário não é exercida diretamente e, portanto, não se dá no campo das escolhas políticas, mas da aplicação do Direito.
- Ninguém, independente da gravidade do crime cometido, pode ser privado das garantias fundamentais do direito de defesa, independente da vontade antagônica da coletividade.
- Por fim, sobre a dúvida se a Lei 8038/90 teria revogado a existência de embargos infringentes no Regimento do STF, argumentou que a Lei não tratou da extinção deles no STF e que cabe ao Poder Legislativo decidir, com exclusividade, sobre a extinção ou não da norma. Além disso, que, inclusive, projeto de lei já havia sido enviado ao Congresso, anteriormente, pedindo a extinção dos embargos infringentes e foi por este rejeitada.
Não adianta reclamar do STF, nem do ministro A ou ministro B. O recurso existe, é legal e foi (tecnicamente falando) corretamente aceito. Temos que reclamar e lamentar muito, sim, é do fato de isso estar previsto na legislação judiciária. O direito à ampla defesa e do contraditório é justo. O que está errado é essa quase eterna possibilidade de recursos existir, pois só adia as decisões finais e termina por beneficiar os réus de tal forma que os torna praticamente impunes. Essa Legislação precisa mudar. Ela deve garantir sim o direito de defesa, mas também precisa garantir a razoável duração dos processos para permitir que os mesmos possam chegar ao final e que os criminosos possam começar a ser punidos. No caso específico do Mensalão, chega a ser revoltante ver que o maior escândalo de corrupção da história do país, que se tornou público desde o ano de 2005, ainda não tem seu julgamento concluído e que ninguém ainda foi preso. Mais revoltante ainda é saber que, devido ao acolhimento dos embargos infringentes, o "rejulgamento" poderá adiar tanto a decisão final que muitos dos crimes poderão prescrever e muitos dos "pré-condenados" ficarão impunes. Queremos acreditar que "a Justiça tarda, mas não falha", mas dói saber que, na prática, "ela não é feita porque tanto se retarda".
terça-feira, 23 de julho de 2013
A influência tem poder
Qual o papel do meio a sua volta na determinação de suas opiniões? Até que ponto as pessoas a seu redor podem influenciar suas preferências? E você, que influência tem em determinar ou modificar as opiniões das pessoas com as quais convive?
Todas as questões acima chamam a atenção devido a inúmeros exemplos que se repetem constantemente. O mais recente foi a última pesquisa de popularidade do Governo Federal, feita pelo Datafolha. Em um intervalo de três semanas, a popularidade da presidenta caiu de 57% para 30% de aprovação, sem que nada de diferente tivesse ocorrido nas ações do seu governo. O evento que influenciou a mudança de opinião da população foram os protestos populares que ocorreram nas ruas de todo o país. Ora, só o fato de ver gente nas ruas "reclamando" fez com que muitos passassem a não mais aprovar o governo, sem que este nada de diferente tivesse feito (nem de bom nem de ruim). Em três semanas nem daria tempo. É o poder da influência.
Ainda falando desses protestos, não chama a atenção o fato deles simplesmente acontecerem em todas as principais cidades praticamente de repente e ao mesmo tempo? Não é interessante pensar que, um mês antes, praticamente nenhuma manifestação ocorria em lugar nenhum e, depois de começar em São Paulo, influenciou todas essas cidades? Num passe de mágica, ninguém se manifestava. Depois que os primeiros exemplos começaram, todos foram tomados pela vontade de protestar.
Deixando os protestos de lado e olhando um pouquinho mais a nossa volta, podemos ver muitos outros exemplos. Quantas pessoas desistem de seus sonhos porque foram desacreditados pelos amigos e parentes? E quantas pessoas, que sempre se acharam incapazes de realizar algo, conseguiram proezas inimagináveis após um empurrãozinho, ou seja, após serem incentivadas por um "não desista, você é capaz, vá por mim"? Quantas crianças se tornam pessoas de bem e honradas pela influência dos bons exemplos de seus pais? E quantos jovens se perdem pelas más influências de amizades nem um pouco saudáveis? Quantas vezes você se calou e deixou de dar uma opinião por saber que estava cercado por pessoas que reprovariam o seu entendimento? Quantas vezes você esteve em um lugar em que não gostaria de estar só porque todos os seus amigos foram para lá? E quantas vezes você se arrependeu depois de comprar uma roupa porque o vendedor disse que estava "ótima em você"? Quantas pessoas se tornaram novas pessoas (mudaram completamente) após serem influenciadas pelo(a) novo(a) namorado(a)? Quantas vezes você fez algo porque insistiram muito e você não soube dizer "não"?
A capacidade de influenciar muda as pessoas. Por serem formadas por pessoas, esta capacidade também consegue mudar comunidades, empresas e até países. Pessoas influentes se tornam espelhos para quem com elas se identifica. Os grandes líderes, do passado e do presente, foram e são quase sempre pessoas que conseguiram ou conseguem "plantar" suas ideias e motivar pessoas a segui-las. Ser influente é uma qualidade, na maioria da vezes, nata, mas que pode ser aprendida. Muitas ideias fracassam devido a seus idealizadores não conseguirem influenciar em um primeiro momento, mas conseguem êxito após alguns aperfeiçoamentos. Sim, influenciar é algo que pode se aprender, até porque o êxito pode não depender apenas de quem vai influenciar, mas também de quem será o influenciado. Quantas vezes ouvimos dizer que alguém é "cabeça-dura" ou uma "pessoa difícil? São termos que usamos quando nos referimos a alguém que dificilmente é influenciado. Tratar com essas pessoas requer técnicas extremamente sofisticadas. É preciso entender o comportamento destas e saber quando e como "plantar a ideia". Se existem as "cabeças-duras", também existem aquelas que são facilmente influenciadas. São aquelas cujas opiniões são formadas e atitudes são tomadas praticamente todas pela influência dos outros. Não fazem nada por convicção e sempre seguem outras opiniões. Uma atitude extremamente perigosa.
O mundo das influências é assim. Existem os influentes e os influenciados. Existem influenciáveis e os dificilmente influenciáveis. Ultimamente, você é um influente ou um influenciado? De que lado você está? Se está do lado dos influenciados e facilmente influenciáveis, saiba que é possível mudar. Paradoxalmente, permita-se ser influenciado por este conselho.
Todas as questões acima chamam a atenção devido a inúmeros exemplos que se repetem constantemente. O mais recente foi a última pesquisa de popularidade do Governo Federal, feita pelo Datafolha. Em um intervalo de três semanas, a popularidade da presidenta caiu de 57% para 30% de aprovação, sem que nada de diferente tivesse ocorrido nas ações do seu governo. O evento que influenciou a mudança de opinião da população foram os protestos populares que ocorreram nas ruas de todo o país. Ora, só o fato de ver gente nas ruas "reclamando" fez com que muitos passassem a não mais aprovar o governo, sem que este nada de diferente tivesse feito (nem de bom nem de ruim). Em três semanas nem daria tempo. É o poder da influência.
Ainda falando desses protestos, não chama a atenção o fato deles simplesmente acontecerem em todas as principais cidades praticamente de repente e ao mesmo tempo? Não é interessante pensar que, um mês antes, praticamente nenhuma manifestação ocorria em lugar nenhum e, depois de começar em São Paulo, influenciou todas essas cidades? Num passe de mágica, ninguém se manifestava. Depois que os primeiros exemplos começaram, todos foram tomados pela vontade de protestar.
Deixando os protestos de lado e olhando um pouquinho mais a nossa volta, podemos ver muitos outros exemplos. Quantas pessoas desistem de seus sonhos porque foram desacreditados pelos amigos e parentes? E quantas pessoas, que sempre se acharam incapazes de realizar algo, conseguiram proezas inimagináveis após um empurrãozinho, ou seja, após serem incentivadas por um "não desista, você é capaz, vá por mim"? Quantas crianças se tornam pessoas de bem e honradas pela influência dos bons exemplos de seus pais? E quantos jovens se perdem pelas más influências de amizades nem um pouco saudáveis? Quantas vezes você se calou e deixou de dar uma opinião por saber que estava cercado por pessoas que reprovariam o seu entendimento? Quantas vezes você esteve em um lugar em que não gostaria de estar só porque todos os seus amigos foram para lá? E quantas vezes você se arrependeu depois de comprar uma roupa porque o vendedor disse que estava "ótima em você"? Quantas pessoas se tornaram novas pessoas (mudaram completamente) após serem influenciadas pelo(a) novo(a) namorado(a)? Quantas vezes você fez algo porque insistiram muito e você não soube dizer "não"?
A capacidade de influenciar muda as pessoas. Por serem formadas por pessoas, esta capacidade também consegue mudar comunidades, empresas e até países. Pessoas influentes se tornam espelhos para quem com elas se identifica. Os grandes líderes, do passado e do presente, foram e são quase sempre pessoas que conseguiram ou conseguem "plantar" suas ideias e motivar pessoas a segui-las. Ser influente é uma qualidade, na maioria da vezes, nata, mas que pode ser aprendida. Muitas ideias fracassam devido a seus idealizadores não conseguirem influenciar em um primeiro momento, mas conseguem êxito após alguns aperfeiçoamentos. Sim, influenciar é algo que pode se aprender, até porque o êxito pode não depender apenas de quem vai influenciar, mas também de quem será o influenciado. Quantas vezes ouvimos dizer que alguém é "cabeça-dura" ou uma "pessoa difícil? São termos que usamos quando nos referimos a alguém que dificilmente é influenciado. Tratar com essas pessoas requer técnicas extremamente sofisticadas. É preciso entender o comportamento destas e saber quando e como "plantar a ideia". Se existem as "cabeças-duras", também existem aquelas que são facilmente influenciadas. São aquelas cujas opiniões são formadas e atitudes são tomadas praticamente todas pela influência dos outros. Não fazem nada por convicção e sempre seguem outras opiniões. Uma atitude extremamente perigosa.
O mundo das influências é assim. Existem os influentes e os influenciados. Existem influenciáveis e os dificilmente influenciáveis. Ultimamente, você é um influente ou um influenciado? De que lado você está? Se está do lado dos influenciados e facilmente influenciáveis, saiba que é possível mudar. Paradoxalmente, permita-se ser influenciado por este conselho.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
A falta médicos no Brasil: alguns equívocos e muitas dúvidas
A falta de médicos e demais profissionais de saúde em regiões carentes, periféricas ou isoladas do país fez o Governo Brasileiro sinalizar algumas medidas para tentar resolver o problema a curto e longo prazos. A curto prazo, a medida que vem sendo mais discutida é trazer profissionais estrangeiros. A longo prazo, a medida já tomada foi uma Medida Provisória que adiciona dois anos aos cursos de Medicina, iniciados em 2015, para prestação de serviço obrigatório dos estudantes no SUS. Duas medidas que, efetivamente, devem produzir muito mais polêmica que resultados efetivos.
Antes de discutir as medidas, em si, é necessário entender as causas do problema. Por que faltam médicos em algumas regiões, enquanto outras estão tão bem servidas? A maioria dos médicos está concentrada nas regiões Sudeste e Sul (mais de dois terços), notadamente nas grandes cidades. São estas as regiões mais ricas e desenvolvidas do país. Já nas regiões Norte e Nordeste, a razão quantidade de médicos por habitante é a menor do país, sendo estas as regiões menos desenvolvidas. Nas cidades do interior, principalmente as menores e mais isoladas geograficamente, estão as menores taxas de médicos por habitante. Também dentro das cidades maiores, de todas as regiões, os médicos estão mais concentrados nas áreas centrais e mais nobres, ficando as periferias com a menor proporção destes profissionais. Não é novidade para ninguém que as periferias das grandes cidades são regiões normalmente muito populosas e que passam por graves problemas sociais, como violência, baixa escolaridade e falta de saneamento. Como é possível perceber, não faltam médicos no Brasil. O problema é que estes estão mal distribuídos, concentrados nas regiões mais ricas e que apresentam melhor infra-estrutura. Em outras palavras, os médicos estão indo para onde lhes são oferecidas melhores condições de trabalho.
O problema já é antigo, tanto que, ao longo dos anos, os governantes tentaram levar médicos para as regiões mais carentes através de salários maiores. Não adiantou. O que comprova ainda mais que o problema não são os salários, e sim a más qualidade de vida e condições de trabalho proporcionadas nestes locais. Nenhuma das duas medidas tomadas pelo governo visa resolver esta questão. Considerando que dotar os municípios de uma infra-estrutura mínima, capaz de atrair profissionais, não é algo que se possa fazer do dia para a noite, e que a falta destes profissionais é um problema "para ontem", a vinda de médicos estrangeiros pode ser considerada uma solução paliativa, mas que se faz bastante necessária. O mesmo já não se pode dizer do trabalho obrigatório dos estudantes de Medicina no SUS, pois, além de ser uma medida para longo prazo (somente em 2020 terminarão os seis anos iniciais de curso das primeiras turmas impactadas pela MP), não ataca o real problema, que é a precariedade das condições de trabalho. Além disso, as duas medidas, que estão sendo tentadas, ainda carregam consigo algumas deficiências que geram muitos questionamentos na sociedade.
A contratação de médicos estrangeiros visa atender as regiões menos favorecidas. Para isso, o Governo pretende aceitar médicos sem a obrigatoriedade destes prestarem o Revalida, exame para revalidação do diploma estrangeiro no país. A justificativa, dada pelo Ministro da Saúde, é que o Revalida daria direito ao médico estrangeiro de trabalhar em qualquer local do país, justamente o que o Governo não quer. Sem o Revalida, ele poderá ser contratado legalmente para trabalhar apenas nos locais autorizados pelo Governo. Faz sentido. Porém, sem a revalidação, a qualidade dos profissionais a serem contratados fica sendo uma grande incógnita. Médico ruim pode ser tão grave quanto não ter médico.
Já a MP que aumenta em dois anos a duração dos cursos de Medicina, a serem iniciados a partir de 2015, para que os estudantes tenham serviço obrigatório no SUS, traz consigo uma polêmica ainda maior e muitos questionamentos. É justo que estudantes de uma categoria profissional sejam obrigados a prestar um serviço social para o Governo, ainda que remunerado, para que possa obter o diploma? Se sim, por que outras categorias profissionais também não têm tal obrigação? Além disso, uma reivindicação antiga dos médicos no SUS são melhorias salariais. Para atrair mais médicos para o SUS, nos próximos anos, o Governo certamente precisaria melhorar os salários, mas, com a oferta grande de profissionais (estudantes) que será gerada por esta MP, desaparece (para o Governo) a necessidade de melhor remunerar os médicos do SUS. Isso não poderá afastar ainda mais os bons profissionais do Sistema Único de Saúde? Ademais, será que os oito anos de curso somados à necessidade de trabalho obrigatório em locais não atrativos, não irá diminuir o interesse dos estudantes pelo curso de Medicina? Outra, um médico, durante este serviço obrigatório, é um profissional ainda em fase de aprendizado. Como poderá este profissional ser alocado em um município isolado, talvez até como único médico deste município, sem outros profissionais mais experientes para auxiliá-lo? Como ele irá aprender? Não é tenebroso? São dúvidas que ficarão "no ar".
Como se percebe, o Governo busca resolver o problema da falta de médicos, mas as medidas adotadas e propostas parecem muito precipitadas e precisam ser reavaliadas. A falta de médicos é um problema sim, mas, mais do que isso, ela é consequência de outras mazelas que o país precisa enxergar e buscar corrigir. Nenhuma das medidas irá gerar melhores condições de trabalho para os profissionais. A solução passaria por melhorar essas condições de trabalho e a qualidade de vida nos municípios mais isolados e das áreas periféricas das grandes cidades, que é o que realmente poderia despertar o interesse de médicos e atraí-los. Tão óbvio que não é nem preciso ser profissional da área de saúde para perceber isso.
Antes de discutir as medidas, em si, é necessário entender as causas do problema. Por que faltam médicos em algumas regiões, enquanto outras estão tão bem servidas? A maioria dos médicos está concentrada nas regiões Sudeste e Sul (mais de dois terços), notadamente nas grandes cidades. São estas as regiões mais ricas e desenvolvidas do país. Já nas regiões Norte e Nordeste, a razão quantidade de médicos por habitante é a menor do país, sendo estas as regiões menos desenvolvidas. Nas cidades do interior, principalmente as menores e mais isoladas geograficamente, estão as menores taxas de médicos por habitante. Também dentro das cidades maiores, de todas as regiões, os médicos estão mais concentrados nas áreas centrais e mais nobres, ficando as periferias com a menor proporção destes profissionais. Não é novidade para ninguém que as periferias das grandes cidades são regiões normalmente muito populosas e que passam por graves problemas sociais, como violência, baixa escolaridade e falta de saneamento. Como é possível perceber, não faltam médicos no Brasil. O problema é que estes estão mal distribuídos, concentrados nas regiões mais ricas e que apresentam melhor infra-estrutura. Em outras palavras, os médicos estão indo para onde lhes são oferecidas melhores condições de trabalho.
O problema já é antigo, tanto que, ao longo dos anos, os governantes tentaram levar médicos para as regiões mais carentes através de salários maiores. Não adiantou. O que comprova ainda mais que o problema não são os salários, e sim a más qualidade de vida e condições de trabalho proporcionadas nestes locais. Nenhuma das duas medidas tomadas pelo governo visa resolver esta questão. Considerando que dotar os municípios de uma infra-estrutura mínima, capaz de atrair profissionais, não é algo que se possa fazer do dia para a noite, e que a falta destes profissionais é um problema "para ontem", a vinda de médicos estrangeiros pode ser considerada uma solução paliativa, mas que se faz bastante necessária. O mesmo já não se pode dizer do trabalho obrigatório dos estudantes de Medicina no SUS, pois, além de ser uma medida para longo prazo (somente em 2020 terminarão os seis anos iniciais de curso das primeiras turmas impactadas pela MP), não ataca o real problema, que é a precariedade das condições de trabalho. Além disso, as duas medidas, que estão sendo tentadas, ainda carregam consigo algumas deficiências que geram muitos questionamentos na sociedade.
A contratação de médicos estrangeiros visa atender as regiões menos favorecidas. Para isso, o Governo pretende aceitar médicos sem a obrigatoriedade destes prestarem o Revalida, exame para revalidação do diploma estrangeiro no país. A justificativa, dada pelo Ministro da Saúde, é que o Revalida daria direito ao médico estrangeiro de trabalhar em qualquer local do país, justamente o que o Governo não quer. Sem o Revalida, ele poderá ser contratado legalmente para trabalhar apenas nos locais autorizados pelo Governo. Faz sentido. Porém, sem a revalidação, a qualidade dos profissionais a serem contratados fica sendo uma grande incógnita. Médico ruim pode ser tão grave quanto não ter médico.
Já a MP que aumenta em dois anos a duração dos cursos de Medicina, a serem iniciados a partir de 2015, para que os estudantes tenham serviço obrigatório no SUS, traz consigo uma polêmica ainda maior e muitos questionamentos. É justo que estudantes de uma categoria profissional sejam obrigados a prestar um serviço social para o Governo, ainda que remunerado, para que possa obter o diploma? Se sim, por que outras categorias profissionais também não têm tal obrigação? Além disso, uma reivindicação antiga dos médicos no SUS são melhorias salariais. Para atrair mais médicos para o SUS, nos próximos anos, o Governo certamente precisaria melhorar os salários, mas, com a oferta grande de profissionais (estudantes) que será gerada por esta MP, desaparece (para o Governo) a necessidade de melhor remunerar os médicos do SUS. Isso não poderá afastar ainda mais os bons profissionais do Sistema Único de Saúde? Ademais, será que os oito anos de curso somados à necessidade de trabalho obrigatório em locais não atrativos, não irá diminuir o interesse dos estudantes pelo curso de Medicina? Outra, um médico, durante este serviço obrigatório, é um profissional ainda em fase de aprendizado. Como poderá este profissional ser alocado em um município isolado, talvez até como único médico deste município, sem outros profissionais mais experientes para auxiliá-lo? Como ele irá aprender? Não é tenebroso? São dúvidas que ficarão "no ar".
Como se percebe, o Governo busca resolver o problema da falta de médicos, mas as medidas adotadas e propostas parecem muito precipitadas e precisam ser reavaliadas. A falta de médicos é um problema sim, mas, mais do que isso, ela é consequência de outras mazelas que o país precisa enxergar e buscar corrigir. Nenhuma das medidas irá gerar melhores condições de trabalho para os profissionais. A solução passaria por melhorar essas condições de trabalho e a qualidade de vida nos municípios mais isolados e das áreas periféricas das grandes cidades, que é o que realmente poderia despertar o interesse de médicos e atraí-los. Tão óbvio que não é nem preciso ser profissional da área de saúde para perceber isso.
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