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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Criatividade infantil: entre o simples do passado e o complexo do presente

Quando nós éramos crianças, acostumamo-nos com coisas simples. Qualquer lata de Leite Ninho poderia ter um cordão amarrado e se transformava num carrinho. Quatro sandálias Havaianas formavam perfeitamente as duas traves de um campo de futebol. Nós éramos criativos, inventávamos nossas brincadeiras e criávamos nossos próprios brinquedos. Era fácil ser criança, como também era "barato" para os pais fazerem seus filhos felizes, afinal, bola, pião, jogo de botão e bola de gude poderiam ser presentes perfeitos.

O tempo foi passando, o mundo foi se modernizando e os brinquedos foram ficando diferentes. Brinquedo bom passou a ser brinquedo caro (quanto custa um Play Station mesmo?). Pior que isso, brinquedo bom passou a ser algo complexo, cheio de luzes, fios, baterias, circuitos eletrônicos. Um dia desses meu filho ganhou um pião. Mas não era o pião da minha época, de madeira que girava após desenrolarmos o cordão. Era um pião de plástico, com uma peça de encaixe e com um botão que, quando acionado, desprendia-se do pião e o fazia girar. Aquela técnica que o bom lançador de pião tinha, aquela que levávamos algum tempo para aprender no nosso tempo, se foi. Agora é só apertar o botão e qualquer um roda o pião. E esse pião ainda é diferente: quando roda toca uma musiquinha e acende luzes de cores diferentes. Bem diferente do nosso pião de madeira.

Tudo muito complexo e tudo muito simples de usar. Difícil mesmo é de consertar. Se dá um defeito, só levando numa assistência especializada. Em outros tempos, era diferente. O brinquedo que quebrava poderia ser consertado em casa mesmo. Se a pipa se rasgava, a gente trocava o papel. Se a bola furava, era consertada com um remendo. As vezes, muitas coisas nem precisavam ser consertadas. A gente continuava brincando com o boneco que ficou sem o braço, com o carrinho que ficou sem a roda ou com o dominó que ficou sem uma peça.

Hoje em dia, não fabricamos nem consertamos nosso brinquedo e cada vez menos vemos brincadeiras com interação ativa em grupo (não em rede, on-line, mas olho no olho). As crianças de hoje ficaram menos criativas? Talvez não. Talvez ela apenas estejam vivendo em um ambiente que não as incentive a exercitar a criatividade. Tudo é muito "pronto" e simples de usar, porém complexo de ajustar. Quebrou? Manda pro conserto ou é só comprar outro. Enjoou? "Baixa" outro da internet.

Em meio a esse ambiente onde tudo é feito para ser fácil de usar e difícil de compreender, as crianças vão perdendo o interesse pela criação. Tudo parece ser tão complexo por dentro que se torna intocável, distante e desinteressante. O poeta já dizia há décadas atrás: "quem me dera, ao menos uma vez, que o mais simples fosse visto como o mais importante". Ele estava certo, mas não foi o caminho da simplicidade que o mundo tomou. E, assim, nossas crianças vão crescendo esperando do mundo coisas prontas. Elas vão crescendo cada vez menos estimuladas, tornando-se menos criativas e, assim, cada vez menos capazes de mudar seu próprio mundo.

sexta-feira, 20 de março de 2015

A geração sem arranhão

Depois que você tem filhos, é inevitável não comparar a infância que você teve com a que tem proporcionado a eles. Sempre pensamos em resgatar aquilo que melhor aconteceu na nossa para possibilitar o mesmo aos nossos pequenos. Lembramos também o que de ruim aconteceu e tentamos eliminar estas experiências desagradáveis do crescimento dos nossos filhos. Enfim, baseamo-nos em nossa experiência para tornar a infância deles a melhor possível.

Quando lembramos da nossa infância, umas das primeiras lembranças são nossas brincadeiras com os amigos e nossos brinquedos. As brincadeiras com amigos eram muitas. Tinha polícia e ladrão, esconde-esconde e bola de gude. Tinham os jogos de queimado, futebol e vôlei. Tinha também tacobol, ping-pong, pular corda. Jogávamos vídeo-game (mas só quando a TV estava disponível). Juntávamos os amigos para brincar com os nossos brinquedos. Fazíamos campeonato de futebol de botão. Tinham também as travessuras: subir no muro, jogar pedra na casa da vizinha, colocar rojão na caixa do correio, apertar a cigarra do vizinho e sair correndo. A gente brincava muito, se sujava todo, rasgava a camisa no espinheiro ou rasgava quando um amigo a puxava numa ou noutra brincadeira. A gente corria, caía, se arranhava todo, pisava em prego, pisava em vidro. Brincávamos, nos machucávamos e éramos felizes.

Hoje nossos filhos também têm seus amiguinhos. Também têm seus brinquedos. Nossos filhos também se divertem, também são felizes, mas... mas..., mas de forma diferente. Nasceram e estão crescendo na geração do computador, do celular e dos jogos eletrônicos. Passam horas em frente a uma telinha, e, assim, percebemos nossos filhos divertindo-se de forma mais solitária e mais sedentária. Se, no passado, nossos pais se preocupavam em saber com quem nós estávamos brincando para não nos juntarmos com "pessoas ruins", hoje, nossos filhos brincam muito mais vezes sozinhos. Se antes a gente "ostentava" nossos machucados e arranhões, hoje, diante dos jogos eletrônicos, nossos filhos estão ficando intactos, sem marcas no corpo e até bem mais pesadinhos. Muitas vezes vemos um grupo de crianças reunidas e, de repente, aquela cena mais comum hoje em dia: uma criança ao lado da outra, todas sentadinhas e cada uma jogando com seu celular. Um silêêêêêêêncio! Bem diferente daquela baderna, daquela confusão, que enlouquecia nossos pais quando éramos crianças. Aquela baderna que, hoje, como pais, gostaríamos de ver.

É. Os tempos são outros. É difícil aceitar ou entender esta nova infância da "geração sem arranhão", ainda mais quando lembramos com tanta nostalgia da nossa. Fica uma estranha sensação de que estamos falhando na construção da infância que sonhamos para nossos filhos. Mais estranha ainda porque fica a dúvida: será que estamos realmente falhando ou será que não há nada de errado e nós é que temos dificuldade em aceitar os novos tempos? Em outras palavras, existe algo realmente errado com esta nova geração ou nós que estamos presos num passado que já não existe mais? Na dúvida, vamos viver o momento e aprender com ele. No futuro teremos a resposta.