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sexta-feira, 20 de março de 2015

A geração sem arranhão

Depois que você tem filhos, é inevitável não comparar a infância que você teve com a que tem proporcionado a eles. Sempre pensamos em resgatar aquilo que melhor aconteceu na nossa para possibilitar o mesmo aos nossos pequenos. Lembramos também o que de ruim aconteceu e tentamos eliminar estas experiências desagradáveis do crescimento dos nossos filhos. Enfim, baseamo-nos em nossa experiência para tornar a infância deles a melhor possível.

Quando lembramos da nossa infância, umas das primeiras lembranças são nossas brincadeiras com os amigos e nossos brinquedos. As brincadeiras com amigos eram muitas. Tinha polícia e ladrão, esconde-esconde e bola de gude. Tinham os jogos de queimado, futebol e vôlei. Tinha também tacobol, ping-pong, pular corda. Jogávamos vídeo-game (mas só quando a TV estava disponível). Juntávamos os amigos para brincar com os nossos brinquedos. Fazíamos campeonato de futebol de botão. Tinham também as travessuras: subir no muro, jogar pedra na casa da vizinha, colocar rojão na caixa do correio, apertar a cigarra do vizinho e sair correndo. A gente brincava muito, se sujava todo, rasgava a camisa no espinheiro ou rasgava quando um amigo a puxava numa ou noutra brincadeira. A gente corria, caía, se arranhava todo, pisava em prego, pisava em vidro. Brincávamos, nos machucávamos e éramos felizes.

Hoje nossos filhos também têm seus amiguinhos. Também têm seus brinquedos. Nossos filhos também se divertem, também são felizes, mas... mas..., mas de forma diferente. Nasceram e estão crescendo na geração do computador, do celular e dos jogos eletrônicos. Passam horas em frente a uma telinha, e, assim, percebemos nossos filhos divertindo-se de forma mais solitária e mais sedentária. Se, no passado, nossos pais se preocupavam em saber com quem nós estávamos brincando para não nos juntarmos com "pessoas ruins", hoje, nossos filhos brincam muito mais vezes sozinhos. Se antes a gente "ostentava" nossos machucados e arranhões, hoje, diante dos jogos eletrônicos, nossos filhos estão ficando intactos, sem marcas no corpo e até bem mais pesadinhos. Muitas vezes vemos um grupo de crianças reunidas e, de repente, aquela cena mais comum hoje em dia: uma criança ao lado da outra, todas sentadinhas e cada uma jogando com seu celular. Um silêêêêêêêncio! Bem diferente daquela baderna, daquela confusão, que enlouquecia nossos pais quando éramos crianças. Aquela baderna que, hoje, como pais, gostaríamos de ver.

É. Os tempos são outros. É difícil aceitar ou entender esta nova infância da "geração sem arranhão", ainda mais quando lembramos com tanta nostalgia da nossa. Fica uma estranha sensação de que estamos falhando na construção da infância que sonhamos para nossos filhos. Mais estranha ainda porque fica a dúvida: será que estamos realmente falhando ou será que não há nada de errado e nós é que temos dificuldade em aceitar os novos tempos? Em outras palavras, existe algo realmente errado com esta nova geração ou nós que estamos presos num passado que já não existe mais? Na dúvida, vamos viver o momento e aprender com ele. No futuro teremos a resposta.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Palmada: nem ao céu, nem ao inferno

No final de 2011 foi, finalmente, aprovada a "Lei Anti-Palmada", aquela que pretende proteger as crianças dos pais violentos. O objetivo da lei é muito claro e todos concordam com ele, inclusive eu, porém não vamos confundir os conceitos de agressão e palmada.

Há quem diga que palmada faz doer e, por isso, é agressão. Muita calma nessa hora. Um simples "bolinho" na mão é claro que dói, porém está muito longe de ser murro, um chute ou uma "pisa" de galho de goiabeira. É preciso considerar a intensidade da ação na hora de considerar um pai que bate no filho como um agressor, um criminoso.

Existem muitas pessoas que defendem a ideia de que, independentemente da intensidade, qualquer ação que cause dor deva ser banida e, por isso, são radicalmente contra a palmada. São os adeptos do "não bata, eduque". Geralmente, são pessoas que dizem nunca terem batido no seu filho. Parabéns para elas! No entanto, é preciso considerar um aspecto importante: cada ser-humano é diferente. Não é possível tratar todos da mesma forma. O que funciona para alguns, pode não funcionar para outros.

Para exemplificar, vejamos um exemplo clássico da teoria de gestão de projetos. Existem gerentes de projetos autoritários, que passam tarefas e ficam o tempo todo cobrando e fiscalizando o que seus gerenciados estão fazendo, e existem os gerentes de projeto motivadores, que passam as tarefas, deixam seus gerenciados à vontade e cobram por resultado. Qual dos dois estilos é o ideal: o autoritário ou o motivador? A resposta é: depende. Depende de quem estaja sendo gerenciado. Há pessoas que só "funcionam" se tiverem um gerente autoritário na supervisão, enquanto que outras só conseguem trabalhar quando deixadas mais há vontade. Isso mostra que não há receita de bolo quando lidamos com pessoas. Novamente: o que funciona para alguns, pode não funcionar para outros.

Assim também são as crianças. Para cada uma delas, deve haver uma forma diferente de tratamento. Para umas, basta os pais falarem uma vez, outras precisam de duas vezes, enquanto que outras nem falando mil vezes. Se algumas podem ser educadas com palavras, outras só com castigo. O castigo ideal também varia de pessoa para pessoa. Para umas, pode ser ficar sem um brinquedo, para outras, ficar sem passear ou ficar sem comer algo que goste, mas tem também aquelas para as quais o castigo ideal é levar uma "boa" palmada. Sim, uma palmada. Não se trata de incentivar a violência, pois a palmada seria um caso extremo, mas, apesar de muitos dizerem que não, pode ser sim educativa, pois cada criança tem uma personalidade, uma índole, um comportamento. Para umas, faz até bem. Acreditem!

Enfim, a lei está aí e sua existência já tem o ponto positivo de trazer o assunto à discussão. Não há dúvidas que as crianças estarão mais protegidas. Agora é preciso avaliar bem o que é palmada e o que é agressão. É preciso não "pecar pelo excesso", considerando qualquer palmada como um crime de outro mundo. Pessoas são diferentes e precisam ser tratadas de forma diferente. Pensemos nisso!