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domingo, 25 de maio de 2014

Pedalar é preciso; facilitar as pedaladas também

A cada dia que passa, sentimo-nos cada vez mais vítimas da mobilidade urbana deficiente de nossas cidades. Vítimas é a palavra correta, pois nossa saúde é que sofre nesta situação: estresse, cansaço, ... e por aí vai. Às vezes me pego pensando o que poderia ser feito para mudar isso. Há pouco mais de um ano, registrei algumas reflexões sobre esse assunto no artigo "A mobilidade urbana no Brasil tem solução?". Nada mudou. Outras vezes comparo as cidades brasileiras com as de outros países e os exemplos de sucesso que lá existem, mas, quando observo a nossa realidade (mercado automobilístico que incentiva a compra de carros, clima tropical, falta de estrutura para transportes alternativos, falta de segurança e educação), praticamente perco as esperanças de melhorarmos a mobilidade.

Esta semana, numa dessas reflexões sobre a mobilidade, resolvi testar uma nova experiência de mobilidade. Sempre fiquei atento aos projetos Porto Leve e Bike PE, que foram implantados na cidade de Recife, há quase dois anos, para incentivar o uso e o compartilhamento de bicicletas como forma de transporte alternativo. Por este sistema, diversas estações são espalhadas pela cidade, de onde os usuários podem retirar bicicletas, fazer deslocamentos pela cidade e devolvê-las em outra estação. É uma ideia legal e sustentável, mas que esbarra em um item estrutural básico da cidade para funcionar perfeitamente: a ausência de ciclovias. No auge de minha inquietude, esta semana, enveredei por testar o sistema pela primeira vez. A aventura está descrita a seguir.

Fiz meu cadastro e retirei uma bike numa das estações do Recife Antigo. Eram por volta das 17h30, horário de trânsito intenso. O destino: Olinda, na estação (desta cidade) mais distante possível do ponto de partida. Comecei o trajeto passando pelas avenidas Cais do Apolo, Norte e Cruz Cabugá. Nestas avenidas, o tráfego lento deixava a bicicleta mais veloz que os carros e, como os carros não andavam, faltava espaço para mim na faixa lateral da via. Por diversas vezes, foi preciso parar na via ou subir na calçada para continuar. Cheguei à primeira conclusão: por incrível que pareça, é melhor para o ciclista trafegar em vias onde o tráfego flui com facilidade que em vias congestionadas, pois consegue-se pegar a faixa lateral com mais facilidade.

Após a Cruz Cabugá, cheguei à Avenida Olinda. É uma avenida larga com trechos de três a seis faixas, porém é um trecho terrível para os motoristas, pois, do Shopping Tacaruna ao bairro do Varadouro, neste horário, perde-se quase 30 minutos para trafegar por apenas 2,5 quilômetros. O começo da Avenida Olinda foi tranquilo, mas, logo depois, o trânsito simplesmente pára e os mesmos problemas dos trechos anteriores se repetiram. Enquanto o tráfego fluía, um novo problema detectado: já era noite e as bicicletas do projeto não possuem luzes indicativas para alertar os motoristas da sua presença na via. Perigo para o ciclista! É uma falha que precisa ser corrigida, pois o sistema de compartilhamento de bicicletas se propõe a funcionar até às 23 horas.

Após chegar ao Varadouro, o tráfego fluiu bem tanto mim e quanto para os motoristas. Por cerca de mais 2 km, ainda foi preciso dividir espaço com os carros, até chegar à ciclovia da Avenida Marcus Freire, a primeira de todo o trajeto. Ali chegava ao verdadeiro "paraíso dos ciclista": uma ciclovia de verdade numa avenida à beira-mar. Após pedaladas velozes e tranquilas, cheguei à última estação, onde tive que devolver a bicicleta, totalizando o percurso de 9 km em 40 minutos. Acredite: um carro, fazendo o mesmo percurso no mesmo horário, levaria bem mais tempo para percorrê-lo. Difícil acreditar, difícil de aceitar, mas é verdade. Uma pena que tinha chegado ao fim. Se existissem outras estações e ciclovias mais adiante, teria ido mais distante e percorrido mais 9 km tranquilamente. O melhor de tudo, ao final, foi a sensação de prazer imensa ao terminar o percurso. Sensação, esta, que não lembro nunca ter sentido ao dirigir. Afinal, estava divertindo-me pedalando e não sofrendo com o trânsito de costume.

Esta experiência posso chamar de uma aventura. Dela, algumas conclusões e constatações podem ser obtidas:
  • É duro viver numa cidade (ou região metropolitana) onde um carro trafega mais lentamente que uma bicicleta.
  • É preciso incentivar o uso de bicicletas para diminuir a quantidade de carros nas ruas e proporcionar melhor qualidade de vida.
  • O aumento no uso de bicicletas só será possível com infraestrutura adequada. Não dá para esperar que muita gente sinta-se confortável ou segura ao pedalar dividindo o mesmo espaço com carros. Cadê as ciclovias, governantes?!
  • O projeto de compartilhamento público de bicicletas do Recife merece aplausos, mas precisa de ajustes e mais apoio. Bicicletas melhores, com luzes indicativas para uso noturno e capacetes proporcionam mais segurança. Mais estações periféricas permitiriam trajetos maiores.
Vale lembrar também que os projetos Porto Leve e Bike PE são apenas motivadores, afinal muitos podem usar próprias bicicletas. Apesar de carecerem de melhorias, o mais importante a ser feito depende de ações que estão além destes projetos. São precisas ações que dependem tanto dos governantes quanto das empresas e repartições e também da própria população.

Dos governantes, esperam-se melhorias urbanas, não apenas com mais ciclovias, mas também, por exemplo, com a construção de bicicletários, afinal, onde estacionar as "magrelas" ao chegar ao destino? Aliás, em ano de eleição, como este de 2014, quantos candidatos estão propondo projetos deste tipo? Lembremos disso. Das empresas, repartições e prédios públicos, espera-se estruturas que facilitem a vida do ciclista. Por exemplo, estes dispõem de chuveiro ou dispõe de armários? O funcionário ou visitante que se propor a se deslocar de bicicleta, especialmente em cidades de clima quente, precisará tomar um bom banho ao chegar ao destino, não é mesmo? Já da população, especialmente dos motoristas, espera-se mais respeito aos ciclistas. Muitos desconhecem (ou desrespeitam mesmo) o Código de Trânsito Brasileiro, que diz que o ciclista, no bordo direito da pista, tem prioridade, e costumam buzinar ou não manter a distância de segurança. Falta educação.

Enfim, após essa experiência, continuo descrente com a solução para os problemas de mobilidade urbana no Brasil e vejo que o panorama pouco mudará nos próximos anos. Porém, saio convencido de que pequenas ações, como o incentivo aos deslocamentos sem carro, em especial, com o uso de bicicletas são viáveis e ajudam, pelo menos, a amenizar o caos nos deslocamentos urbanos.

domingo, 4 de novembro de 2012

A mobilidade urbana no Brasil tem solução?


Em todas as grandes cidades do Brasil, um problema comum é o da mobilidade urbana. Congestionamentos e a má qualidade do transporte público são as principais queixas da população. A maioria das prefeituras, e até governos estaduais, têm proposto alargamento de ruas e avenidas, corredores exclusivos para ônibus, expansão das linhas de metrô, monotrilho, bilhetagem eletrônica, dentre outros. A verdade é que tudo isso que tem sido proposto serve apenas de paliativo. Na prática, não resolverá os problemas, pois suas causas não se restringem apenas a questões de infra-estrutura. Vão muito além disso e envolvem hábitos comportamentais e econômicos.

Primeiramente, observemos que a maior parte dos sistemas de transporte público é formado por ônibus coletivos. Normalmente este serviço é terceirizado, através de concessão, a empresas particulares, que devem explorar o serviço de transporte para aferir lucro próprio e garantir um padrão de qualidade aceitável. Aí já reside um antagonismo: o lucro versus a qualidade. De forma geral, ao melhorar a qualidade, diminui-se o lucro. Ora, a população espera que os ônibus não demorem a passar nas paradas e que não estejam lotados. Mas diminuir o tempo e a lotação entre cada viagem implica em colocar mais ônibus nas linhas, ou seja, diminuir o lucro. Em outras palavras, do ponto de vista das empresas, quanto mais pessoas forem transportadas em menos viagens de ônibus, maior será seus lucros. Isto é, ônibus vazio é sinônimo de prejuízo. Logo, a terceirização e a falta de concorrência caminham em sentido contrário ao da melhoria do serviço oferecido à população.

Além da lotação e da demora, que são o que mais afetam a população, um outro fator piora a qualidade do transporte e traz prejuízo tanto para a população quanto para empresas: os congestionamentos. Devido a isso, o deslocamento urbano se torna cada vez mais lento. Sofre a população, que perde muito tempo para chegar a um destino e, com isso, até deixa de deslocar-se mais frequentemente, sofrem também as empresas, que diminuem seus lucros devido à demanda reprimida (mais pessoas querendo, mas sem poder se deslocar) e ao aumento de gastos (combustível, peças, ...). E tendo menos lucros, resta às empresas diminuir a qualidade ou aumentar as tarifas. Começa aí um claro ciclo vicioso: menos lucro implica em menor qualidade, que implica em mais pessoas evitando os ônibus, o que traz menos lucro e recomeça o ciclo.

Mas então quer dizer que diminuir os congestionamentos seria a solução? Então as propostas de vários governantes de alargar avenidas e criar corredores exclusivos de ônibus irão resolver o problema? Sim, a solução passa por resolver os problemas de congestionamentos, mas as propostas apresentadas pelos governantes não atacam o coração do problema, apenas amenizam seus efeitos. É preciso muito mais do que corredores exclusivos, alargamentos de ruas ou abertura de novas avenidas. A raiz do problema reside fora do sistema de transporte, no modo de vida que a sociedade busca. É o modelo consumista representado pelo automóvel. Este é o maior vilão.

A sociedade prega que as pessoas trabalhem para melhorar de vida. Neste caso, melhorar de vida é quase sempre representado por adquirir bens. E um dos bens mais desejados é o carro. O bendito carro. Bastam apenas três carros enfileirados para ocupar, nas ruas, o mesmo espaço de um único ônibus. Sendo que três carros populares levam no máximo quinze pessoas, enquanto que um ônibus leva sessenta pessoas. Na prática é bem pior, pois os carros quase nunca estão cheios. Estudos apontam que três carros costumam levar, em média, de quatro a sete pessoas. Então são de quatro a sete pessoas ocupando o mesmo espaço nas ruas que um ônibus com sessenta. Como os congestionamentos são formados em sua maioria por carros, fica evidente como utilizamos mal esse espaço. Desperdiçamos muito espaço. Mas quem vai preferir abandonar o carro e utilizar o transporte público? Entra aí mais um componente que aumenta o ciclo vicioso. O transporte é ruim, então mais gente usa o carro. Com mais gente usando carros, maiores os congestionamentos. Com maiores congestionamentos, menores os lucros das empresas de transporte. Com menores lucros, pior a qualidade. Com menos qualidade, mais gente prefere o carro e maior o congestionamento. É preciso quebrar esse ciclo. Mais uma vez, não adiantam apenas obras de infra-estrutura para dar mais velocidade ao trânsito. A quantidade de carros que entram no sistema é superior à capacidade de investimento em infra-estrutura.

Pronto, parece que já descobrimos onde reside o problema. É só dar um jeito de frear o uso dos carros, certo? Sim, é. E até parece fácil, só que não é. Além de envolver uma grande e difícil mudança cultural, seria preciso criar condições para esta mudança. Precisaria haver algum incentivo para que as pessoas diminuam a dependência do carro, seja esse incentivo através da melhora do transporte público ou mesmo através de medidas restritivas a sua utilização (rodízio?, pedágio?... não sei!). No entanto, só a melhora do transporte público já se torna difícil por se encontrar no meio do ciclo vicioso descrito anteriormente, e as medidas restritivas, além de serem "impopulares", ainda batem de frente com a questão econômica: a indústria automobilística. Esta é uma das mais lucrativas, que mais empregam e que mais crescem no país. É tão importante que, quando uma crise atinge esta indústria, o governo imediatamente toma medidas para protegê-la e alavancar as vendas (vide redução do IPI). Então como mudar o hábito das pessoas, se o próprio governo incentiva o consumo cada vez maior dos carros?

O problema da mobilidade urbana no país é muito mais complexo do que parece. Muitas variáveis estão envolvidas na questão: economia, cultura, infra-estrutura, falta de investimento, monopólio do transporte público... Nem mesmo as vindas de uma Copa do Mundo e de uma Olimpíada para o país foram capazes de forçar o país a tomar medidas capazes de garantir uma mobilidade urbana no mínimo aceitável. O certo é que a solução, se existe para o Brasil, está muito, muito, muito distante e o problema só tende a piorar.