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sábado, 30 de maio de 2015

Quando o melhor não está evidente no primeiro contato

Muitas vezes, somos tentados na vida a sair do sério e reclamar raivosamente contra algo ou alguém que não age conforme esperamos ou que nos causa um prejuízo. Em algumas dessas situações, manter a calma e exercitar e parcimônia é uma tarefa muito difícil. No entanto, a vida é capaz de nos surpreender e, algumas vezes, o nosso esforço acaba trazendo algumas recompensas.

Era uma sexta-feira. Resolvi levar a bicicleta para a manutenção de rotina. Uma manutenção deste tipo, normalmente, dura menos de uma dia. Você leva a bicicleta na loja pela manhã e pega à tarde. Como era fim de tarde, o lojista avisou que o serviço só estaria pronto no dia seguinte. Era o esperado por mim. Mas, como no sábado já tinha outros compromissos, avisei que iria buscar a bicicleta na segunda-feira. Combinado. Tudo bem. Por iniciativa própria, resolvi também já deixar a manutenção paga antecipadamente.

Pois bem. Na segunda-feira, pela manhã, saí mais tarde que o habitual de casa, fui até a loja e esperei-a abrir. Atrasei alguns compromissos do dia para estar ali, naquele momento, e retirar a bike revisada para levá-la para casa, antes de seguir a rotina do dia. Para surpresa e decepção total, a atendente informou que o serviço ainda não havia sido concluído. Veio logo em mente a lembrança de que a bicicleta foi deixada na sexta e que o serviço deveria estar pronto, com folga, no sábado. Já era segunda-feira e não estava pronto. Lembrei também dos compromissos que adiei para estar na loja naquele horário na segunda-feira. Ainda, como mais um agravante, lembrei que o serviço já havia sido pago com antecedência. Tudo isso já seria motivo suficiente para iniciar uma reclamação ruidosa. Para alguns, já haveria motivo para esculhambar o estabelecimento pelo mau atendimento prestado e prometer não mais voltar ali. Por instante, realmente, esse sentimento veio à mente, mas, subita e surpreendentemente, se foi. 

Tomado por uma quase inexplicável paciência, disse: "Tudo bem". E, em seguida perguntei: "Quando o serviço estará pronto?". A resposta foi que poderia retornar à tarde, horário este em que já tinha outro compromisso, desta vez, inadiável. Assim, só poderia retornar na terça-feira. Foi o que aconteceu. No entanto, passei a segunda-feira inteira pensando por que tive tamanha paciência, pensando como pude ter sido tão "bonzinho", enfim, pensando por que não havia usado meu direito de consumidor mal atendido para dar um esculacho geral e com toda razão.

Pois bem, tirados esses pensamentos ruins, fui no dia seguinte, finalmente, buscar a bicicleta e foi justamente aí que veio a surpresa. A atendente informou que a bicicleta ainda estava com bastante graxa nas partes internas e que, por isso, não foi preciso fazer a lubrificação, ficando a manutenção restrita à lavagem e ao ajuste dos freios. Sendo assim, a loja iria restituir parte do direito pago antecipadamente pelo serviço que não precisou ser realizado. Foi uma grata surpresa, principalmente, porque, hoje em dia, é difícil achar lojistas honestos ao ponto de não cobrar o preço total de um serviço, quando o mesmo já está facilitado. Ponto para aquela loja que, naquele momento, ganhava a confiança de um cliente que não hesitaria em voltar a tomar seus serviços. Justamente aquela loja que, um dia antes, poderia ter sido alvo da ira de um cliente insatisfeito pelo serviço demorado.

A vida tem dessas coisas. Muitas vezes, a primeira impressão, que afirmam ser a que fica, na verdade, é a que nos engana. Pior, esta primeira impressão negativa, quando levada muito sério nos faz perder oportunidades de conhecer um ou vários lados bons, que se encontram ocultos no primeiro contato. Na situação descrita, uma raiva causada por um serviço atrasado poderia ter me impedido de conhecer a honestidade da loja. Muitas vezes, um descontrole, uma raiva, uma ira motivada por um primeiro contato traumático, nos faz fechar nossas portas para pessoas, lojas ou situações que possuem muitas qualidades que nos fariam muito bem. Assim também ocorre muitas vezes no nosso dia-a-dia. Nos afastamos de pessoas por achá-las, num primeiro contato, muito "sem graça" e perdemos a oportunidade de conhecer suas melhores qualidades. Muitas vezes, de forma oposta, nos encantamos demais com pessoas pelo primeiro contato e nos abrirmos demais com elas, para só depois percebemos suas características ruins. Muitas vezes perdemos o controle e iniciamos uma briga com alguém por um pequeno desentendimento, logo no primeiro contato, e riscamos esta pessoa de vez de nossa vida, por resumir aquela pessoa apenas ao fato ocorrido. Quantas vezes nos afastamos de pessoas que acabamos de conhecer, só por causa de uma opinião diferente da nossa sobre um certo assunto e nos afastamos porque resumimos todas as qualidades da pessoa, apenas àquela divergente naquele momento?

A vida acaba nos ensinando a sermos mais cautelosos com nossos julgamentos. Ter calma nos primeiros contatos vai nos ajudar a não tomarmos a primeira impressão com verdade sempre. Experiências ruins, num primeiro instante, não significam que tudo que gira em torno daquilo ou daquela pessoa seja ruim. Não devemos nos afastar de pessoas logo no primeiro julgamento. Todos temos defeitos e virtudes. Alguns, mais defeitos que virtudes. Outros, mais virtudes que defeitos. Um defeito evidente logo de cara, pode esconder grandes e grandes virtudes. Então, que sejamos mais cautelosos com nossos julgamentos e tenhamos sabedoria para enxergar o melhor que está por vezes escondido no primeiro contato.

domingo, 14 de outubro de 2012

O Mensalão e o pré-julgamento popular dos ministros do STF

O julgamento do Mensalão, maior escândalo de corrupção dos últimos anos, ganhou a atenção do brasileiro. Sua longa duração, aliada à repercussão quase diária na mídia, tem feito com que ele seja pauta de debates nas ruas, nos bares, nas redes sociais, em todos os lugares. Todos discutem quem foi condenado, quem foi absolvido, como cada ministro votou, como foi o último bate-boca entre os ministros... Nunca nenhum outro julgamento do Supremo Tribunal Federal foi tão "popular".

Com esses "novos olhares" voltados para o STF, chama a atenção a reação das pessoas comuns às decisões dos ministros. Para o público, estranhamente, os heróis e vilões não são os réus, mas sim aqueles que estão julgando. O ministro Joaquim Barbosa virou herói nacional, aquele que a todos condena. Já o ministro Ricardo Lewandowski "conquistou" a ira popular e ganhou a fama de absolver os "corruptos". Mas será mesmo Joaquim Barbosa herói? Será mesmo Lewandowski vilão?

É claro que todos desejam ver todos os corruptos condenados, porém, o maior erro popular é fazer pré-julgamento. É condenar simplesmente pelo "achismo" de que todo mundo é culpado. É achar que, se um ministro vota pela absolvição, é porque está "comprado", e que, se vota pela condenação, é por ser honesto. Quem entende um pouquinho de Direito sabe que a Justiça não pode se basear hipóteses, mas sim em fatos concretos, ou seja, em provas incontestáveis. Um juiz de direito não pode levar em consideração apenas denúncias ou probabilidades, deve considerar sempre evidências que, fundamentalmente, precisam constar nos autos do processo.

O ministro Lewandowski, quando absolve, sempre argumenta que não há provas consistentes. E, diante desta situação, faz o que qualquer juiz deve fazer: na dúvida, pró réu. Já estas mesmas provas, para Joaquim Barbosa, são comprovações suficientes para condená-los. E, neste caso, vota pela condenação. Ora, ora... o processo é o mesmo, mas os entendimentos são divergentes. Questão de interpretação. Mas quem está interpretando corretamente? Você sabe? A imensa maioria dos "expectadores" do Mensalão já assumiu, como verdade absoluta, que Joaquim Barbosa é "o cara", muito mais pelo desejo de ver todos sendo condenados do que por uma interpretação técnica e racional dos fatos.

Essa mesma maioria que transforma Joaquim Barbosa em novo herói nacional, por acaso, leu os autos do processo? Certamente que não. Então como pode dizer que Lewandowski está absolvendo erradamente? Se formos realmente imparciais, podemos até considerar que, se não há provas, então Joaquim Barbosa é que seria o vilão, por estar usando seus poderes de ministro do STF para condenar sem provas concretas. Mas claro que isso é apenas uma suposição. Cabe a nós, cidadãos comuns, acompanharmos o desenrolar dos fatos e fazermos nossos julgamentos sim, mas com coerência e racionalidade. Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski divergem em seus votos. Ok! Quem está certo? Apesar de a maioria dos demais ministros acompanharem o relator e da imensa tendência popular pró Barbosa, pelas letras frias da lei, ninguém sabe. Portanto, sem essa de querer criar heróis e vilões.

A verdade é que nós, cidadãos leigos, que apenas acompanhamos o julgamento pela mídia, devemos ser mais cuidadosos com aquilo que achamos ser a verdade. Não podemos nos contaminar por um desejo de justiça inconsequente e achar que todo mundo tem que ser culpado. Não podemos achar que toda absolvição é por "proteção" dos ministros à corrupção. Aliás, se fosse para haver pré-condenação, para que existiria esse julgamento? Para que existiria o STF?